Groselha

 

groselha

 

Num bairro de endinheirados, a garota morena mergulha na cama, desliza o dedo sobre o smartphone, abre o aplicativo que a conecta a centenas de pessoas e encaminha a mesmíssima mensagem de Natal a todos. No texto, a menção de que todos os destinatários, sem sequer uma exceção, são especiais. Feliz Natal! Na tela do moderno computador, ao lado, um punhado de mensagens coloridas e conteúdos que emanam — ou ao menos pretendem — energias positivas, com votos de harmonia, fartura, saúde e muita alegria a todos. Empolga-se a garota, porém, com a quantidade de pessoas que respondem no mesmo tom e curtem, com um clique-joia, todas as suas postagens. É que a ela as festas de fim de ano são muito mais proveitosas, na prática, quando lhe servem como terapia; uma forma confortável de se conectar a amigos que comumente não lhe dão atenção noutras épocas e, de quebra, ainda aumentar o seu índice de likes, este geralmente alto por conta das fotos sensuais que costuma publicar. Ego. Não longe, num bairro de famílias menos abastadas, a mãe-de-duas-filhas está de férias desde o início de dezembro — dá aula em três turnos e ganha, por conta da furada política educacional do governo, uma miséria. É Natal! No fim da tarde, pendura um bocado de enfeites em acrílico numa espécie de varal, prega uma guirlanda em cada porta e improvisa um benjamim para ligar, na mesma tomada, o aparelho de som magazine e a árvore artificial de Natal, sob a qual estarão todos os presentes. A previsão é de que alguns amigos e toda a família compareça, inclusive alguns de seus desafetos: a velha tia, por exemplo, sobre a qual fala mal o ano inteiro. A mãe-de-duas-filhas está concentradíssima em ser, como anfitriã, bastante respeitosa durante a noite, consciente de que em noite de Natal duas condições são imprescindíveis: (1) que não haja as brigas — essas permitidas somente em datas não-comemorativas — e (2) que os presentes adquiridos para as filhas, ainda que em doze vezes sem juros no cartão de crédito, sejam melhores e mais caros do que os presentes comprados por outras mães. Feliz Compra! A propósito, num país em que o clima médio gira em torno dos 26 graus Celsius, shopping centers jogam flocos de sabão ao alto para simular a neve que só cai, quando cai, em países do hemisfério norte nesta época do ano, mas não só; todos eles têm um representante de Papai Noel fazendo biscate pró-impostos-2014 — geralmente um senhor sexagenário, com barba branca natural, enfiado numa roupa quente e com a coxa esfolada de tanta bundinha infantil que por ali senta. Tudo, tudo isso, para atrair as garotas endinheiradas, as mães-de-duas-filhas e todos os muitos outros que se submetem ao novo e triste formato dos eventos natalinos.

À meia noite, quando muito todos oram. Mas o fazem rapidamente, porém, pois o foco geralmente é outro. O mais comum é que a 0h00 seja aguardada para a chegada do tio fantasiado e um rápido abraço de Feliz Natal. em todos, sem ponto de exclamação. A garota morena prefere não engordar com a adiposa ceia e, ao invés disso, mergulha novamente na cama para alimentar a já congestionada operadora de telefonia celular com mais uma ou duas dezenas de mensagens idênticas. As duas filhas entram num rasga-rasga de papeis e, enfim, depois de 2 meses e 15 dias de espera, voltam suas atenções aos troféus. É que a mãe-das-duas, agora orgulhosa, pôde consolidar a vitória na disputa do aclamado prêmio Melhor Presente aos Filhos 2013. Votos de saúde são prontamente contrariados pelos exageros na comilança, que ficam por conta dos homens e das gordinhas mais relaxadas. Alguns chegam a ingerir todo um quilo de um compilado contendo alimentos não-convencionais: chester-bolinha, carne com trecos, maionese com uva passa, champáguine, arroz com frutas cristalizadas, lentilha (da sorte), panetone e uma arroba e meia de nozes e tipos raros de amendoins. Depois as crianças acabam enjoando dos presentes, os homens passam a embebedar, as mulheres ficam sem papo. E termina o Natal. Ah, gente, foi tudo impecável! Obrigada!

(…)

Crerei em seus votos de Feliz Natal! somente se, em todos os outros dias, os desejos permanecerem vivos e na mesma intensidade. Crerei na pureza de sua festa natalina somente se, em todos os outros dias, você não gastar seu tempo falando mal de familiares, amigos ou quaisquer outros. Crerei no conteúdo de sua mensagem virtual somente se ela for enviada pessoalmente num outro dia qualquer, com o mesmo teor. Crerei no seu espírito natalino quando os seus presentes forem, de fato, somente o plano de fundo de uma reflexão muito mais bacana, divina, muito mais duradoura. Caso contrário, sobretudo se concentrada num só dia, a tal bondade me parece muito fácil de ser vivida. Cheira a fake, conveniente demais. (…) No fim das contas, acho injusta a desconstrução da motivação original do Natal, hoje substituída por um moderno evento de culto ao ego, à gula e ao consumo desvairado.

A propósito, você quer groselha?

    Deixe seu comentário