Mello

 

amandamello

 

Não eram dois Ls. O nome de nascença é Amanda Melo da Silva, com um L sem-par. Melo. Mas Mello — o com dois Ls — representa bem a menina que, assim como o nome, mudou à medida que o tempo passou. Mudou rápido, como poucos seres que conheço. Evoluiu. Pois da garotinha que aos 17, franzina e maltrapilha, mal sabia onde se situava a Avenida Paulista à quase-mulher que hoje me acompanha, todo um mundo. Tornou-se minha melhor amiga, parceira, companheira; conquistou-me como inseparável e paciente escudeira. Transformou-se. Amanda Mello.

2008, início do ano letivo. A aula havia terminado e, como de costume, eu não aplicaria a chamada. Descobriria bem depois, atuando como professor universitário, que controlar a presença dos alunos não seria, definitivamente, o meu ponto forte. Defendo ainda hoje que estudantes, sobretudo no ensino superior, devem se responsabilizar pela própria carga horária; comparecer à sala de aula somente quando dispostos a participar e absorver, efetivamente, os conteúdos em debate. Amanda era do tipo raro que, mesmo quando já sabia da ausência do controle de presença, permanecia presente. Na prática, era até estimulada a faltar às aulas; afinal, um grupo com quarenta jovens afoitos e enclausurados num primeiro semestre em adição à complexidade da minha disciplina — metodologia científica — não ajudavam. Faltar, portanto, era ato rotineiro. Sempre assim: bastava eu apresentar um indício de que terminaríamos a aula para que, num simples estalo, a sala se esvaziasse. Na época, imagine, estávamos todos em iniciação e eu realmente não podia esperar que alguém enxergasse algo de atrativo nas minhas apresentações. Ao menos não tão facilmente. Amanda, entretanto, enxergava. Não saía correndo, não se esvaziava. Tanto que, sendo justamente assim, ao fim de uma aula na qual eu não aplicaria chamada, a garotinha franzina e maltrapilha resolveu tomar uma decisão que não somente justificou a construção de todo esse parágrafo, mas orientou muitas das mudanças que aconteceriam em nossas vidas anos depois — o que inclui a adição do tal L a um de seus sobrenomes. Mello.

Naquela noite, os alunos saíam como se sentissem o alívio de tirar um sapato super apertado após horas a fio. Eu ainda me esforçava para decorar seus nomes e alguns deles sequer davam o ar da graça ao sair. Empoleiravam-se nas mochilas e chispavam respirando melhor. Do meio da bagunça, na contramão, ela. Professor, eu gostaria de saber se tens uma oportunidade para mim. Quero começar a trabalhar. E eu, de fato, não tinha, não precisava de alguém. Não naquele momento. Bem verdade, na época eu estava mudando o escritório de lugar, instalando-o numa pequeníssima sala comercial no centro da cidade. A abordagem, porém, havia incitado a reflexão. Aviso-te, respondi. Dias depois, por lá eu estava organizando um pequeno processo seletivo para contratar meu primeiro estagiário. Primeira, no caso. ~ Era bem cedo. Uma das candidatas não estava em boa forma física. Mineira, com sotaque e tudo. Lembro-me bem que, após a conversa, ela era dada pelos mais próximos como séria candidata a assumir o posto. A outra, franzina, continuava — também no dia da entrevista — maltrapilha. Era Amanda, a própria. Tinha tudo para não ser minha primeira estagiária, mas demonstrava uma vontade incomum. E mais: a energia dizia em favor dela. Divino. Seria Amanda, algo dizia. E foi. Começou dias depois, posta numa fogueira sem igual: vender um curso que ambos não compraríamos. Não é necessário dizer que as vendas do curso não deram certo, mas sim que, em meio àquela situação constrangedora, minha relação com Amanda se estreitou. Éramos verdadeiros um com o outro. Evoluímos juntos, desde então.

Amanda Mello foi a pessoa com quem mais convivi nos últimos anos. Era o dia inteiro: logo cedo no trabalho; depois, à noite, eu permanecia como seu professor. Conseguimos um espaço maior, dentro de uma faculdade. Organizávamos eventos, fazíamos pesquisas e estudávamos a abertura de novos negócios. Amanda, que pouco sabia sobre softwares de gestão, passou a conhecê-los melhor. Realidade, ela passou a conhecer melhor o mundo todo. Um pouco de tudo. Sentou à beira das caixas de papelão repletas quando resolvi mudar o escritório novamente de lugar. A contragosto, abriu e fechou a porta para que centenas de pessoas se acomodassem num ciclo de palestras. Preparou mesas e brioches para cafés da manhã. Inventou jogos de empreendedorismo para jovens de ensino médio. Desenhou e acompanhou o planejamento das empresas como gente grande. Contou piadas ruins como ninguém. Falou pelo nariz. Saiu tonta de uma montanha russa quando visitou pela primeira vez um grande parque de diversões. Ensinou-me sobre as propriedades mágicas do Epocler. Amedrontou-se em seu primeiro vôo de avião quando soube que a turbina, logo após a decolagem, ameaçou falhar. Passou todo um dia no Rio de Janeiro comigo, onde fotografamos o Cristo Redentor bem de perto. Foi paciente ao trocar centenas de mensagens via celular durante minha visita ao Rio Grande do Norte e, como boa companheira, esteve comigo no ano subsequente, quando visitamos — então juntos — São Luís, no Maranhão. Bebeu Guaraná Jesus. Viajou comigo também a Minas Gerais, Olinda, São José do Rio Pardo, Itu, Recife, a um bocado de outros lugares e até às estrelas certas vezes. Depois falou mal da empresa. Aprendeu com as broncas. Bronqueou-se. Aceitou o desafio e encarou quase 24 horas de trabalho ininterruptos no escritório. Voltou tarde para casa em muitíssimas ocasiões, de ônibus e até de táxi, com um argumento generoso na ponta da língua: preferia não me incomodar. Tirou fotos trágicas quando morena, gastou pouco para enloirar. Depois gastou mais porque — e o barato sai caro! — não tinha ficado bom. Mudou o estilo de se vestir. Passou a ser vista. E ouviu. Hey, psiu! Ouviu-me falando como nunca ninguém ouviu. Viu-me chorar e sorrir por n motivos; e talvez seja a única pessoa que conheça tais motivos profundamente. Liquefez-se e também aprendeu a chorar. Aprendeu a sorrir, a gargalhar com humor trash. Não mudou seu perfil no Facebook, que ainda diz — mesmo não sendo mais verdade —: trabalha na GQuest Soluções em Marketing. Foi funcionária 001. Nota 1000. Foi única. ~ Pois o tempo lhe fez bem, Amanda. Enfim, transformou-se. E tais mudanças e experiências — certamente haveria centenas de outros exemplos! — justificam a alteração. Mello, com dois Ls, foi somente o símbolo de tais mudanças. Um L a mais. Bastou.

2013, setembro. Ainda ontem estive com Amanda Mello. Fomos ao jogo que marcou o retorno de Muricy Ramalho ao São Paulo Futebol Clube. Na volta, jantando num restaurante japonês, conversávamos sobre valores humanos, coisas de família. Já em casa, a inspiração. Chegava, enfim, a hora de escrever sobre a garota que passei a gostar e com quem ainda tenho muito a viver. A que me aguenta como nunca ninguém me aguentou; a que aguento como provavelmente ninguém vai aguentar. Quis escrever sobre a nova Amanda — a Mello. E embora — por não escrever tão bem ainda — não a tenha representado como eu realmente gostaria, eis um texto que escrevi para dizer ao mundo o quanto ela é importante para o meu mundo. És uma garota única, Amanda, hoje quase-mullher. =) Com dois Ls.

Obrigado por tudo.

    2 Comentários

    1. Essa história de encontros e desencontros tem tudo a ver com a minha história com o césar. Estamos há vinte anos escrevendo nossa história!!!
      A de vocês tem tudo pra perdurar lindamente durante longos anos!!

      Tudo de bom queridos!!!

    2. Willian, é possível ver um filme ao ler seus textos!
      Que a mesma sinceridade com a qual este sentimento nasceu permaneça para sempre entre vocês.
      Felicidades!!!

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