Marina, os monstros, o príncipe e a lua

 

Le Petit Prince

 

Garimaldo é irmão gêmeo de Garibaldo. São fisicamente feios, aparecem com certa frequência, têm personalidades distintas e moram na lua. Garibaldo, embora tenha feições assombrosas, é um monstro bondoso, bastante querido, que brinca com crianças e diverte-as com danças do tipo gangnam-style; Garimaldo, por outro lado, faz jus aos dentes interpolados, o capuz escuro e a face assimétricos; sempre empunhando uma lanterna, é gatuno, noturno, amedrontador, esconde-se atrás de troncos de árvores e invade casas ao anoitecer. […] Em companhia da irmã e primas, Marina está deitada sob a cama à espreita. Esforça-se, assim como as outras, para não emitir sequer o quase inaudível som da respiração infantil, fato que certamente poderia despertar a ira de Garimaldo. À procura de suas presas, o dito monstro apareceu de supetão sem que houvesse tempo sequer para que o grupo capitaneado por Marina implementasse de modo bem sucedido o complexo plano: correr desesperadamente e aos gritos, sem rumo algum, como crianças que adoram brincadeiras do tipo.

Dias antes, Marina torceu o nariz quando soube que o foguete seria de papel. Porque foguetes de papel não voam de verdade e a constatação, aos 6 de idade, definitivamente não a agradou. O artefato que o avô estava construindo sobre a mesa do escritório não seria suficiente, não a levaria a lugar algum. Bem verdade, a engenhoca era um tipo escolar de origami com dois ou três papeis sulfites cortados às pressas e algumas poucas passadas de cola em bastão. Olhou para aquele treco não-tecnológico e acabou entendendo. Então, desolada, já pronta para ir à escolinha, momentos antes do almoço, sentou-se no chão e chorou. Afinal, não seria tão fácil realizar o, definido por ela, maior sonho de sua vida: visitar a lua — morada dos monstros Garimaldo e Garibaldo.

Num universo em que O Pequeno Príncipe vive num planeta só dele, em que monstros habitam o espaço e sendo elas tão livres para experimentar, ainda que mentalmente, suas mais encantadoras fantasias, não é de se estranhar que crianças queiram visitar a lua e sonhem tão alto. Se pudessem, realizariam tudo num passe de mágica: do combate ao monstro lunático à viagem à lua. […] É que — bom que assim seja! — monstros povoam suas mentes e aparecem às crianças como num só estalo, ainda que sob a forma de um tio mascarado já fora de forma, a persegui-las aos pinotes. Pois basta apontar a máscara e contar Este é Garimaldo, irmão de Garibaldo para que ali, brilhando, surja um mundo encantado. Basta dizer que a construção de um foguete de papel é bem suficiente para que um voo interplanetário aconteça e, segundos depois, a verdadeira expectativa da viagem. Ou mesmo dizer que um pequeno príncipe é capaz de viver sozinho num planeta pequeníssimo, basta isso, para que conhecer o tal planeta passe a ser uma experiência incrível a ser vivida.

Marina, os monstros, o príncipe e a lua são exemplos de itens a serem preservados num mundo repleto de adultos negativistas, preguiçosos e sem quaisquer perspectivas de um futuro mais encantador. São raros exemplos de elementos com os quais precisamos conviver mais por aqui, no mundo dos mais velhos: o espírito da criança, a fantasia, o impossível e o infinito.

Garimaldo, você está aí?

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