Da minha nuvem

 

 

A nuvem nonde vivo foi feita para mim: carregada e chuventa, é do tipo que não agrada a ninguém quando desponta no céu. Alta, meio cinza, meio branca. Nimbus. B612 2.0. Daqui vejo um mundo carregado, frio, desorganizado, gerido por um software capenga e abastecido com combustível à base de frustrações dos mais diversos tipos. Um mundo nonde os seres humanos vivem de expectativas, de crise, de aprendizados que não se findam. Daqui — bem uns 12km de altura — é possível enxergar o quanto os valores terrenos foram alterados de tempos para cá; porque, como dizem por aquelas terras, a evolução, digo a entre-aspas, permite mudanças quaisquer ao longo do tempo, ainda que para pior. E de tempos cá, de repente em função de tal permissão, a nuvem nonde vivo passou a se precipitar mais, a ficar ainda mais pesada. Ela chove forte, raja ventos, estremece o chão por onde passa; e o faz não para auxiliar, mas decerto para que os seres humanos — aqueles que vivem de expectativas e de aprendizados que não se findam — se atolem ainda mais à frente das telas de computador, deixando de lado as mãos dadas e o olhar tête-à-tête para digitar, por ali mesmo, via teclado, “como ser feliz” no Google e clicar, logo em seguida, via mouse, o botão Estou com sorte! Talvez assim aprendam, de fato. E daqui, sem aguaceiros, rajadas de vento forte e bem longe das alterações climático-psicológicas que assolam a atmosfera, as porções de terra e os seres humanos, posso lhes dizer que vivo bem. Cético em relação ao mundo, confesso, mas bem. […] A nuvem nonde vivo foi feita para mim e daqui, escrevendo, cabe justamente a mim agradecer por sua gasosa existência. Agradeço, afinal, porque daqui posso crer que amor à moda antiga vai bem, mesmo em nossos dias. Daqui sou livre para ser romântico sem elevar ao céu — se é que nele já não estou — o título de piegas. Da nuvem nonde vivo posso culpar a nova mulher — evoluída ou não — pela pobre e perecível configuração das atuais relações amorosas. Daqui, sem receio, posso acreditar que a esposa dos meus sonhos é linda e está viva a caminhar por aí. Os sonhos, inclusive, são liberados por aqui, nonde sonhar, comer, rezar e amar não são atos utópicos. Daqui podemos crer que algo incrivelmente inesperado ainda alterará o software, as configurações e os rumos do mundo. Format, cê, dois pontos. Porque aqui, já fechando a conta, somos quase etéreos sob a ótica dos mais terrenos; somos quase utópicos; nefilibatas mesmo. E aqui, sim, quase tudo podemos. Pois sobre a nuvem nonde vivo somos construídos dia após dia, sem culpa, a partir de nossos sonhos. E por aqui isso não é ruim.

Bom que seja assim.

    Deixe seu comentário