<?xml version="1.0" encoding="UTF-8"?>
<rss version="2.0"
	xmlns:content="http://purl.org/rss/1.0/modules/content/"
	xmlns:wfw="http://wellformedweb.org/CommentAPI/"
	xmlns:dc="http://purl.org/dc/elements/1.1/"
	xmlns:atom="http://www.w3.org/2005/Atom"
	xmlns:sy="http://purl.org/rss/1.0/modules/syndication/"
	xmlns:slash="http://purl.org/rss/1.0/modules/slash/"
	>

<channel>
	<title>Universo Criativo</title>
	<atom:link href="http://www.universocriativo.com/blog/?feed=rss2" rel="self" type="application/rss+xml" />
	<link>http://www.universocriativo.com/blog</link>
	<description></description>
	<lastBuildDate>Tue, 15 Jan 2013 12:28:02 +0000</lastBuildDate>
	<language>en-US</language>
	<sy:updatePeriod>hourly</sy:updatePeriod>
	<sy:updateFrequency>1</sy:updateFrequency>
	<generator>http://wordpress.org/?v=3.5.1</generator>
		<item>
		<title>O livro dos sonhos — Parte IV</title>
		<link>http://www.universocriativo.com/blog/?p=2643</link>
		<comments>http://www.universocriativo.com/blog/?p=2643#comments</comments>
		<pubDate>Thu, 10 Jan 2013 03:05:55 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Willian Girarde</dc:creator>
				<category><![CDATA[Meus amores]]></category>
		<category><![CDATA[Minha Família]]></category>

		<guid isPermaLink="false">http://www.universocriativo.com/blog/?p=2643</guid>
		<description><![CDATA[&#160; &#160; O Clube Esportivo da Penha foi fundado no primeiro dia de 1930, existe até hoje e é um dos poucos espaços poliesportivos que ainda não foram destronados pelas atrações das áreas de convivência nos condomínios, pelas modernas academias de ginástica ou mesmo pelos comportamentos sedentários que afastaram definitivamente muitas crianças e adultos das [...]]]></description>
				<content:encoded><![CDATA[<p>&nbsp;</p>
<p style="text-align: justify;"><img class="aligncenter size-full wp-image-2662" alt="Casal" src="http://www.universocriativo.com/blog/wp-content/uploads/casal.jpg" width="420" height="200" /></p>
<p>&nbsp;</p>
<p style="text-align: justify;">O Clube Esportivo da Penha foi fundado no primeiro dia de 1930, existe até hoje e é um dos poucos espaços poliesportivos que ainda não foram destronados pelas atrações das áreas de convivência nos condomínios, pelas modernas academias de ginástica ou mesmo pelos comportamentos sedentários que afastaram definitivamente muitas crianças e adultos das atividades ao ar livre. Nos primeiros anos de sua existência, o CEP — como o clube também é conhecido na zona leste paulistana — era uma opção distinta ao público, que se divertia em suas piscinas flutuantes naturais sobre o Tietê. Em 1953, porém, a alteração no traçado do rio quase pôs tudo a perder. Não fossem as manobras administrativas e as importantes campanhas para atrair novos sócios e mantê-lo vivo, o Clube Esportivo da Penha certamente não teria sido palco do primeiro encontro entre Odorica e Odair. Foi num baile do CEP, em meados de 1967, que os jovens se conheceram. Mal sabiam: mesmo tendo que enfrentar cinco problemas já nos primeiros encontros, o amor duraria para sempre.</p>
<p style="text-align: justify;"><em>Vilma, dê uma olhadinha naquele rapaz ali.</em> Odorica havia se empolgado com a presença dele e o apontava para uma de suas melhores amigas. Era Odair. Estavam num desfile no Clube Esportivo da Penha, onde na mesma noite aconteceria um baile dançante. À época, era comum que homens convidassem mulheres para uma dança a dois. E foi o que aconteceu quando o baile se iniciou. Galanteador, Odair se aproximou e a convidou para dançar. Então, o primeiro problema: ao invés de estender a mão a Odorica, o jovem Odair a estendeu a Rosinha. Rosinha era amiga de Odorica e o fato de Odair ter convidado sua amiga para dançar a deixou furiosa. <em>Pensei que ele me tiraria para dançar!</em> Mas a fúria não durou muito, pois bastou que mudassem a música para que Odair fizesse a escolha certa. Nova dança e um novo convite: Odair e Odorica, enfim, dançavam pela primeira vez. Ao longo da festa, não só dançaram, mas também conversaram bastante, conheceram-se melhor. O segundo problema apareceria ao fim do baile, na mesma noite: chovia muito na Penha e Odair não era do tipo abastado, que tinha carro e muito dinheiro. A ideia, <em>a priori</em>, era que ele pudesse convidá-la também para uma carona, mas não pôde: deixou-a no ponto de ônibus mais próximo para que, sozinha, a jovem voltasse a São Miguel. E foi. Voltou só, chegou ensopada. [...] Passaram-se alguns dias e marcaram um novo encontro. Odorica exporia os primeiros indícios de que era uma pessoa paciente, tanto por aceitar o novo convite quanto pelo terceiro problema: Odair marcou o novo encontro e não compareceu. <em>Fim, não o verei mais!</em>, finalizou. Na prática, não foi assim. Já na segunda-feira, Odair também exporia os primeiros indícios de que estava apaixonado: pediu que um amigo fosse à porta da Philips exclusivamente para entregar a Odorica um pequeno bilhete. <em>Quero encontrá-la novamente</em>. Odorica, na ocasião, foi taxativa: <em>Quer? Pois que ele venha aqui!</em> Então, no outro dia, logo cedo, mesmo com o compromisso de bater o ponto pontualmente às nove no banco onde trabalhava e fez carreira, lá estava Odair em frente à Philips, às 6h30 da manhã. Encontraram-se e marcaram um novo encontro, de novo. Por sorte, uma nova chance ao jovem galanteador. [...] Quarto problema: além de galanteador, Odair jogava futebol com amigos, tocava numa fanfarra — era <em>literalmente</em> um fanfarrão! — e ainda tinha o péssimo hábito de chegar atrasado aos compromissos pessoais. Por conta disso, um novo e impressionante bolo com chá de cadeira: Odair não compareceria novamente ao novo encontro, de novo. A fúria de Odorica, então, voltou à tona: <em>Fim, eu nunca mais o verei!</em> Mas não; afinal, a uma também apaixonada mulher bastaria somente um novo bilhete e Odair ganharia uma nova chance. O bilhete chegou, mas o local do encontro, por uma inteligente decisão de Odorica, seria outro. <em>Se quiser me ver novamente, pois que venha à minha casa!</em> Tarefa árdua a Odair, que, sendo de Guarulhos, precisaria tomar um ônibus até a Penha — onde ficava o clube —, descer no centro comercial de São Miguel e finalizar o trajeto a pé, até a casa da jovem. Com o pé cortado, imagine, seria ainda pior. [...] Era noite e, pela própria segurança, Odorica estava acompanhada de Benedita, sua mãe, que não se cansava de alertar as filhas sobre a cafajestice dos homens. Mais uma vez, fato já comum, Odair se atrasou. <em>Ele não deve vir</em>, dizia a desditosa Odorica. Na outra ponta da rua, porém, minutos depois, Odair apontou. Com ele, o quinto problema: o jovem galanteador sofria, de fato, com um corte na pele e vinha mancando; o pé esquerdo num sapato e o outro — o machucado — num chinelo. Bem verdade, era a prova de amor que Odorica tanto esperava. Evidente, todo o esforço de Odair era abastecido pela vontade que ele tinha de tê-la para sempre. [...] Então, sem ao menos que houvesse um pedido formal de namoro, começaram a namorar. Casariam em 1972, criariam filhos a partir de 1981 e viveriam as bodas de esmeralda — em comemoração ao 40º ano de casamento — em 2012. Permanecem juntos, permanece o amor.</p>
<p style="text-align: justify;">Até hoje.</p>
]]></content:encoded>
			<wfw:commentRss>http://www.universocriativo.com/blog/?feed=rss2&#038;p=2643</wfw:commentRss>
		<slash:comments>2</slash:comments>
		</item>
		<item>
		<title>O livro dos sonhos — Parte III</title>
		<link>http://www.universocriativo.com/blog/?p=2616</link>
		<comments>http://www.universocriativo.com/blog/?p=2616#comments</comments>
		<pubDate>Thu, 10 Jan 2013 03:04:04 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Willian Girarde</dc:creator>
				<category><![CDATA[Meus amores]]></category>
		<category><![CDATA[Minha Família]]></category>

		<guid isPermaLink="false">http://www.universocriativo.com/blog/?p=2616</guid>
		<description><![CDATA[&#160; &#160; Vencedoras do concurso Miss Universo devem ter os punhos levemente mais flexíveis. Os acenos são incríveis. [...] Em 1967, cobravam 5% ao mês para emprestar dinheiro. Benedita, a pedido da filha, tomou um valor emprestado, algo em torno de R$200 nos dias de hoje. O agiota chegou a visitar o casebre da família [...]]]></description>
				<content:encoded><![CDATA[<p>&nbsp;</p>
<p style="text-align: justify;"><img class="aligncenter size-full wp-image-2624" alt="Miss" src="http://www.universocriativo.com/blog/wp-content/uploads/miss.jpg" width="420" height="200" /></p>
<p>&nbsp;</p>
<p style="text-align: justify;">Vencedoras do concurso Miss Universo devem ter os punhos levemente mais flexíveis. Os acenos são incríveis.</p>
<p style="text-align: justify;">[...]</p>
<p style="text-align: justify;">Em 1967, cobravam 5% ao mês para emprestar dinheiro. Benedita, a pedido da filha, tomou um valor emprestado, algo em torno de R$200 nos dias de hoje. O agiota chegou a visitar o casebre da família em São Miguel para negociar. O objetivo era garantir o transporte de Odorica, já aos 20, em sua luta diária para conseguir um novo emprego; pegava ônibus. Benedita o guardava de forma disciplinada, abastecendo a filha a toda saída. <em>Boa sorte, Odorica! </em>[...] Num dos dias, a garota disse não precisar do dinheiro. <em>Mãe, hoje vou procurar emprego ao lado da Dutra. Não preciso do dinheiro, vou a pé.</em> E foi bem cedo. Veio da zona leste de São Paulo, cruzou a rodovia Presidente Dutra, andou por muitos quilômetros, passou ao lado das grandiosas SKF, Pfizer e Olivetti, e, por fim, já beirando o meio-dia, chegou à Philips. Ao chegar, nada. Portões fechados e fábrica inacessível aos visitantes desconhecidos porque, obviamente, já naquela época era importante que alguém indicasse ao empregador o candidato à vaga. Odorica tinha ido a pé, sem dinheiro, sem nenhuma indicação e ainda aparentava cansaço. Naturalmente não conseguiria entrar. Arriscou-se ao perguntar o nome do segurança que guardava a entrada da multinacional e, com sucesso, continuou: <em>Carlos, eu preciso trabalhar. O que eu faço? Não conheço ninguém.</em> Descobriu que Senhor Reinaldo, chefe do departamento pessoal, estava prestes a chegar. <em>No momento em que ele passar, garota</em>, indicou o prestativo funcionário, <em>mostro-o para você!</em> Moreno baixote, Reinaldo foi abordado por Odorica minutos depois, assim que chegou do almoço. <em>Trabalho desde os 7 anos, Senhor Reinaldo, já tenho carteira assinada; trabalhei na Estrela, na Nitroquímica e estou precisando demais desse trabalho. </em>Recebeu das mãos do baixote um pequeno cartão e uma orientação. <em>Volte amanhã. </em>Exames médicos, testes e até continhas de matemática. Noutro dia, logo cedo, agora por indicação de Reinaldo, Odorica lá estava, preparando-se para compor a linha de montagem da Philips. Mal sabia, ajudaria a empresa por longos 12 anos produzindo aparelhos televisores, rádios e muitos outros produtos que revolucionariam toda a geração seguinte. Mal sabia, viraria chefe de produção algum tempo depois. Talvez a mais famosa.</p>
<p style="text-align: justify;">Em 1968, já como funcionária, recebeu um convite enquanto trabalhava. Ela ainda pouco entendia, mas todo o fuzuê na seção acontecia porque os diretores passeavam por ali naquele exato momento, todos a escolher as representantes do concurso Miss Philips de 1968. Fez-lhe um convite um deles, o Senhor Jardim, certamente deslumbrado com sua beleza. <em>Você tem chances, que tal aceitar o meu convite e participar de nosso concurso?</em> A princípio envergonhada, Odorica procurou saber quem seriam as concorrentes ao pleito e, além, ainda precisava criar coragem para dois outros árduos afazeres: o primeiro era avisar o aspirante-a-marido Odair — com quem viveria um amor cinematográfico — de que participaria do tal concurso; o segundo, caso vencesse a competição, era participar do Programa Silvio Santos. [...] Dia do evento e a música estava por conta do maestro Caçulinha. A família estava presente, o que incluía a mãe Benedita e alguns de seus irmãos. A plateia contava ainda com algumas das mais importantes autoridades da época, dentre elas o prefeito de Guarulhos. Ainda nervosa, a candidata deixou os últimos retoques do penteado sob a responsabilidade da irmã Ausenda. Chegava a hora. <em>Na passarela, Odorica!</em> E assim, sem que nada a pudesse impedir, a antiga vendedora de pirulitos estava a desfilar, linda. Era, talvez pela primeira vez na vida, o centro das atenções. Fotos, <em>flashes</em>, assobios. E pouco bastaram as concorrentes. Em 1968, a coroa era dela. Odorica era a Miss Philips.</p>
<p style="text-align: justify;">[...]</p>
<p style="text-align: justify;">Como funcionária, doze anos se passaram. Em 1979, como prova de que as fases da vida são como ondas, Odorica estava de saída da empresa. A Philips estava se mudando para a zona franca de Manaus. Ao agradecer por tudo, foi vista acenando de forma incrível em direção aos antigos colegas de trabalho, em tom de despedida: o punho direito levemente mais flexionado, um sorriso lindo no rosto e a pose única, incomparável.</p>
<p style="text-align: justify;">Era a mais bela miss.</p>
]]></content:encoded>
			<wfw:commentRss>http://www.universocriativo.com/blog/?feed=rss2&#038;p=2616</wfw:commentRss>
		<slash:comments>0</slash:comments>
		</item>
		<item>
		<title>O livro dos sonhos — Parte II</title>
		<link>http://www.universocriativo.com/blog/?p=2590</link>
		<comments>http://www.universocriativo.com/blog/?p=2590#comments</comments>
		<pubDate>Thu, 10 Jan 2013 03:03:28 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Willian Girarde</dc:creator>
				<category><![CDATA[Meus amores]]></category>
		<category><![CDATA[Minha Família]]></category>

		<guid isPermaLink="false">http://www.universocriativo.com/blog/?p=2590</guid>
		<description><![CDATA[&#160; &#160; O choro de Pelé não era à toa. A taça do mundo, enfim, era nossa. E pela primeira vez. Diziam: com brasileiro não há quem possa! Também, que tipo de time poderia suportar a pressão de uma seleção brasileira com Gilmar, Djalma Santos, Bellini, Orlando, Nilton Santos, Zito, Didi, Garrincha, Pelé, Vavá e Zagallo? Quem poderia? [...]]]></description>
				<content:encoded><![CDATA[<p>&nbsp;</p>
<p style="text-align: justify;"><img class="aligncenter size-full wp-image-2598" alt="Pelé" src="http://www.universocriativo.com/blog/wp-content/uploads/pelé.jpg" width="420" height="200" /></p>
<p>&nbsp;</p>
<p style="text-align: justify;">O choro de Pelé não era à toa. A taça do mundo, enfim, era nossa. E pela primeira vez. Diziam: <em>com brasileiro não há quem possa!</em> Também, que tipo de time poderia suportar a pressão de uma seleção brasileira com Gilmar, Djalma Santos, Bellini, Orlando, Nilton Santos, Zito, Didi, Garrincha, Pelé, Vavá e Zagallo? Quem poderia? Os caras eram bom no samba, bom no couro. Ligada em todo canto, a voz de Osvaldo Moreira se estropiava ao bradar o eterno <em>Gol de Pelé! Aos 46 do segundo tempo, Pelé acaba de marcar o quinto tento do Brasil!</em> Em 1958, os televisores eram incomuns, de modo que a maioria sintonizava a Rádio Nacional. Não era rara a cena na qual dezenas de pessoas se reuniam para ouvir os jogos. Ali, na pequena Careaçu, não era diferente.</p>
<p style="text-align: justify;">Enquanto o povo comemorava o primeiro título brasileiro na Copa do Mundo, um pequeno garoto refletia. Tinha apenas 14 anos. À época, passava pela cabeça do pequeno Pedro a ideia de viajar arriscadamente a São Paulo. Como bom homem, pretendia tirar a família da situação em que vivia por ali, no sul das Minas Gerais. <em>Mamãe, vou a São Paulo em busca de melhores condições.</em> Sabia que os primeiros anos seriam duros; afinal, menores de idade ganhavam metade dos salários comuns aos já adultos. <em>Assim que me ver livre do exército, aos 18, venho em busca de nossa família</em>, dizia confiante. Então, em 1959, um ano depois de assistir à seleção canarinho conquistando a Jules Rimet, a família inteira de Pedro viria a São Paulo. Além do garoto sonhador, viajaram Benedita, Venuto, Ausenda, Maria, Zezé e a pequena Odorica. Venderam tudo em Minas Gerais — panelas, camas, mesas e, anos depois, até o próprio casebre! — em busca de uma nova vida. Clichê da época: eram pobres, vinham de longe e acabaram pairando em São Paulo.</p>
<p style="text-align: justify;">Nos primeiros quinze dias na cidade grande, restou-lhes um porão. Até que arrumassem uma casa para morar, viveram com Tio Joaquim, irmão de Benedita. Alugaram, enfim, um casebre quarto-cozinha e nada mais. Sequer fogão tinha, este improvisado no lado externo da casa, no chão mesmo, suscetível às pancadas de chuva. Para o sustento, a matriarca pôs-se a lavar roupa fora, o pequeno Pedro passou a trabalhar como tapeceiro e Ausenda, como doméstica; Maria ingressou numa oficina de costura e a pequena Odorica, antes vendedora de pirulitos e empregada do casal Homero e Maria, virara faxineira aos 11. [...] Odorica ia à escola de manhã e à tarde faxinava toda a casa de uma enfermeira. Aos 12, já com 5 anos de experiência, chegou a trabalhar na Mooca, mas fora despedida por conta de suas frequentes cólicas comuns à idade. O tempo passava. Arrumou emprego na Rua Oriente, próxima ao local de trabalho da irmã Maria; iam juntas. Por conta de sua já antiga habilidade com vendas, foi convidada ainda criança para trabalhar numa loja de uniformes. Aos 14, já adolescente, conseguiu uma vaga na Nitroquímica, em São Miguel. Era por lá que, na ocasião, já noutra casa, toda a família morava. É que anos antes, ciente de seus desejos, Benedita havia vendido o pequeno casebre em Minas Gerais para dar entrada noutro, nos arredores da Nitroquímica. E por ali Odorica ficara até os 17 anos, quando, após rápida passagem como vendedora de móveis, foi pentear bonecas na Estrela, a fábrica de brinquedos. Por lá se machucava e era maltratada; enfim, odiava. À época, já eram 10 anos ou mais de experiência no currículo da nem-tão-pequena garota, ali já aos 18. Chegava à maioridade. [...] No todo, consolidaram-se em São Paulo. Esforçavam-se todos e não mais passavam fome; não mais viviam à custa da pequena olaria em Careaçu.</p>
<p style="text-align: justify;">Em 1958, na tarde em que Pelé chapelou o zagueiro Julle Gustavsson e selou a vitória brasileira com o quinto gol da final contra a anfitriã Suécia, um garoto refletia no outro lado do mundo. Bastou um pensamento — o de Pedro — para reorientar os rumos de toda uma família. <em>Mamãe, vou a São Paulo em busca de melhores condições.</em> E isso acabou alterando a vida não somente do jovem adolescente, mas também a de sua mãe Benedita, a de Venuto, Ausenda, Maria, Zezé e a vida da nem-tão-pequena Odorica. O título mundial, por sinal, era outro: Pelé, Garrincha e Didi já tinham garantido o campeonato de 1962, no Chile.</p>
<p style="text-align: justify;">A taça do mundo era nossa. Pela segunda vez.</p>
]]></content:encoded>
			<wfw:commentRss>http://www.universocriativo.com/blog/?feed=rss2&#038;p=2590</wfw:commentRss>
		<slash:comments>0</slash:comments>
		</item>
		<item>
		<title>O livro dos sonhos — Parte I</title>
		<link>http://www.universocriativo.com/blog/?p=2538</link>
		<comments>http://www.universocriativo.com/blog/?p=2538#comments</comments>
		<pubDate>Thu, 10 Jan 2013 03:02:12 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Willian Girarde</dc:creator>
				<category><![CDATA[Meus amores]]></category>
		<category><![CDATA[Minha Família]]></category>

		<guid isPermaLink="false">http://www.universocriativo.com/blog/?p=2538</guid>
		<description><![CDATA[&#160; &#160; 1954. Manhã de sol, 30 de setembro. Às 6h10, o silêncio era cortado pelo som dos bem-te-vi! e por duas carroças arrastadas aos pangarés em direção à praça principal, cambaleando pela empoeirada avenida. Levavam leite. Ao longo do caminho, do alpendre dos casebres, ouvia-se também o locutor da rádio em volume baixo, numa danada [...]]]></description>
				<content:encoded><![CDATA[<p>&nbsp;</p>
<p style="text-align: justify;"><img class="aligncenter size-full wp-image-2577" alt="1954" src="http://www.universocriativo.com/blog/wp-content/uploads/1954.jpg" width="420" height="200" /></p>
<p>&nbsp;</p>
<p style="text-align: justify;">1954. Manhã de sol, 30 de setembro. Às 6h10, o silêncio era cortado pelo som dos <em>bem-te-vi! </em>e por duas carroças arrastadas aos pangarés em direção à praça principal, cambaleando pela empoeirada avenida. Levavam leite. Ao longo do caminho, do alpendre dos casebres, ouvia-se também o locutor da rádio em volume baixo, numa danada chiadeira ao fundo, com sua voz empostada para todo o Brasil: <em>este noticiário é um oferecimento de Romi-Isetta. O lado bom da vida é o lado de dentro de uma Romi-Isetta!</em> Nas casas, o som dos talheres de café da manhã; homens e crianças ao trabalho e às aulas. A cidade acordava, era tomada pelo sol e pelo cheiro de café moído.</p>
<p style="text-align: justify;">Ali, ao sul das Minas Gerais, morava Odorica Aureliana, uma pequena garota de família pobre e sofrida, filha de Benedita Aureliana Perantula e Pedro Bassiano. Perdera o pai precocemente anos antes, antes mesmo que pudesse conhecer melhor os detalhes históricos de sua imigração italiana; Pedro nascera em Genova. Ainda muito jovem, viu a mãe Benedita alugar uma pequena olaria — local onde se produziam tijolos com barro ou argila — para o sustento da família à custa de muito esforço. Morou num casebre com chão de terra batida, chegou a dormir enrolada em folhas de bananeira que as protegia, e mais um bando de crianças, do frio. Irmã de quase uma dezena, viu o irmão Venuto gastando todo o dinheiro da olaria com jogos e bebidas; viu a irmã Ausenda — os nomes eram italianos — trabalhando num hotel ainda criança, preparando refeições e servindo hóspedes; viu a irmã Maria trabalhando como doméstica, também bem cedo. Maria, inclusive, certa vez foi ao circo e lá aprendeu como os pirulitos eram feitos artesanalmente. Aos 6, a pequena Odorica já os vendia na rua. <em>Olha o pirulito! Olha o pirulitô!</em> Batia de casa em casa a vender, sempre se aproveitando do fato de que, à luz dos anos 50, naquela pequeníssima cidade, as mulheres geralmente tinham muitos filhos. Chegou a propor um trabalho em conjunto, nonde ela venderia enquanto a irmã gritava. Maria tinha vergonha. A vendedora, de fato, era a pequena Odorica. <em>Olha o pirulito!</em> <em>Olha o pirulitô!</em> [...] Ali vivia.</p>
<p style="text-align: justify;">Naquela manhã de setembro, às 6h10, ao som dos pássaros, a pequena já estava de pé a pensar no breve passado. Em frente ao espelho, olhou para si. Toda bendita manhã, buscava o leite e o pão, depois moía o café. Ainda criança, já havia deixado de vender pirulitos artesanais para cuidar de crianças e auxiliar nos afazeres domésticos; era empregada em casa de família. Tinha somente 7 anos. Preparava o desjejum diariamente, ajeitava as pequeníssimas crianças e punha-se a conversar com os adultos antes de ir à escola. <em>Não aumente meu salário e logo saio!</em>, bradava em voz infantil. Ganhava alguns poucos mirreis ao mês e chantageava os patrões Homero e Maria com certa frequência. <em>Fique mais um ano conosco e, prometo, arrumarei seus dentes!</em>, retrucava o patrão, tentando convencê-la a permanecer. Chegou a ir pr&#8217;outra casa de família, onde as crianças eram birrentas e a mordiam. Não gostava e, meses depois, voltou à casa de Homero. Aliás, era de se entender que a pequena garota continuasse a trabalhar; afinal, mesmo pobre, ela era bem alimentada pelos patrões. Às 6h55, já havia ingerido uma generosa medida de café com leite e a metade do pão sovado que lhe era oferecido; o restante, guardava para o recreio. O sinal da escola tocava pontualmente às 6h55 porque às 7h00, também pontualmente, entravam todas as crianças. De tão pequena, o alerta ecoava por toda a cidade. De tão pequena, ninguém se atrasava em Careaçu. [...] Ao meio-dia a garota já estava de volta e o almoço, pronto. Comia às conchas e não raramente — aos 7! — lavava toda a louça.</p>
<p style="text-align: justify;">Passou o tempo e a pequena chegou a cobrar a promessa do saudoso Homero. <em>Senhor Homero, &#8216;óia, quando o senhor vai colocar o meu dente novo?</em>, num sotaque tipicamente mineiro. Sem dentes novos, teve uma infância sofrida, mas feliz. Vendeu pirulitos, trabalhou em casa de família. E não há dúvidas de que também subiu em pés de jabuticaba e se esbaldou no rio que atravessava a cidade; certamente contou o dinheirinho que trazia para ajudar em casa, aprontou, apanhou da mãe e depois, com o rosto ainda sujo por uma mistura de pó e lágrimas, sorriu. Escreveu em vida uma história digna de um livro que bem mais tarde transformar-se-ia numa de suas vontades: <em>O livro dos sonhos</em>, com a história de sua vida. Ali, onde o silêncio era cortado diariamente pelo som dos <em>bem-te-vi! </em>e por carroças arrastadas aos pangarés, crescia uma mulher digna de homenagens.</p>
<p style="text-align: justify;">Crescia <strong>Odorica</strong>.</p>
]]></content:encoded>
			<wfw:commentRss>http://www.universocriativo.com/blog/?feed=rss2&#038;p=2538</wfw:commentRss>
		<slash:comments>0</slash:comments>
		</item>
		<item>
		<title>O livro dos sonhos — Epígrafe</title>
		<link>http://www.universocriativo.com/blog/?p=2681</link>
		<comments>http://www.universocriativo.com/blog/?p=2681#comments</comments>
		<pubDate>Thu, 10 Jan 2013 03:01:29 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Willian Girarde</dc:creator>
				<category><![CDATA[Meus amores]]></category>
		<category><![CDATA[Minha Família]]></category>

		<guid isPermaLink="false">http://www.universocriativo.com/blog/?p=2681</guid>
		<description><![CDATA[&#160; &#160; Minha mãe se chama Odorica, nome de origem italiana que bem a define: senhora próspera. Meu nome é Willian Girarde. Certa vez me disse que a história de sua vida daria um bom livro e que, num de seus sonhos, gostaria de vê-lo escrito em vida. Até então, sobre a tal história, à [...]]]></description>
				<content:encoded><![CDATA[<p>&nbsp;</p>
<p style="text-align: justify;"><img class="aligncenter size-full wp-image-2696" alt="O livro dos sonhos" src="http://www.universocriativo.com/blog/wp-content/uploads/capa_livro_blog.jpg" width="420" height="200" /></p>
<p>&nbsp;</p>
<p style="text-align: justify;">Minha mãe se chama Odorica, nome de origem italiana que bem a define: <em>senhora próspera</em>. Meu nome é Willian Girarde. Certa vez me disse que a história de sua vida daria um bom livro e que, num de seus sonhos, gostaria de vê-lo escrito em vida. Até então, sobre a tal história, à exceção dos contos fundamentais, eu pouco sabia. Aliás, é infelizmente comum que saibamos pouco sobre a vida de nossos pais e avós. Então, sem que ela soubesse, sentei à mesa num almoço e pus um aplicativo do telefone a gravar uma conversa de 45 minutos. Foi um dos bate-papos mais divertidos que tivemos. Estávamos em 2012, meados de outubro; eu tinha 31 e ela, 64. Fiz questão, ali, que expusesse um pouco de seus momentos mais marcantes. Na cabeça, a vontade de escrever o livro dos sonhos dela, ainda que pequeno, à minha moda. Na cabeça, a vontade de mostrar ao mundo um pouco da história de minha querida mãe. [...] Nos textos procurei expôr em detalhes algumas das importantes lembranças que antecederam a minha vinda ao mundo, em 1981. Porque depois disso, evidente, exceto pela mais tenra infância, as coisas a mim foram se tornando mais claras, sobretudo em nossa relação. Lembro-me bem da época em que ela me levava ao Jardim Encantado — escola nonde cursei o ensino primário — com a lancheira recheada, lembro-me da época em que ela torcia por mim enquanto me arriscava com a camisa 8 no time de futebol do Esporte Clube Vila Galvão, das malcriações adolescentes e da paciência que ela tinha para me aguentar nessa difícil fase. Lembro-me também do acidente automobilístico que sofremos, quando não a perdemos porque meu pai foi heroico; lembro-me da época em que, em meio a almoços e arruma-malas dos filhos, ajeitava-nos para as aulas e para o mundo, das viagens a Minas Gerais, das broncas que me dava, à toa ou não, da época em que avaliava minhas namoradas; enfim, lembro-me de nosso dia-a-dia, que felizmente perdura até os nossos dias. Criou-me, viu-me crescendo, cresceu junto. Nas minhas recordações, uma mulher sábia que bem edificou sua casa, sua família, exatamente como dita a Bíblia. Em minha mais bonita recordação, um simples abraço — o melhor dentre os que já recebi! <em>Nunca vou te deixar só</em>, disse. [...] Obviamente tenho em memória muitos outros momentos; muitos muitíssimo bons, alguns poucos nem tanto. Mas os momentos que me antecederam, esses não estavam tão claros, ao menos a mim não estavam ditos. Da garota sofrida que vendia pirulitos nas ruas e sua vinda a São Paulo até a vitória no concurso de miss e o casamento com Odair Girarde, meu pai, houve todo um belíssimo trajeto. Foram momentos que a construíram, que precisavam ser expostos para que ela se sentisse completa. Daí a vontade que tinha de ter escrita sua própria biografia — <em>O livro dos sonhos</em>. Tinha.</p>
<p style="text-align: justify;">Eis o pequeno livro.</p>
]]></content:encoded>
			<wfw:commentRss>http://www.universocriativo.com/blog/?feed=rss2&#038;p=2681</wfw:commentRss>
		<slash:comments>0</slash:comments>
		</item>
		<item>
		<title>Teoria da Xoxotinha</title>
		<link>http://www.universocriativo.com/blog/?p=2498</link>
		<comments>http://www.universocriativo.com/blog/?p=2498#comments</comments>
		<pubDate>Sat, 29 Dec 2012 17:30:42 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Willian Girarde</dc:creator>
				<category><![CDATA[Pensamentos]]></category>

		<guid isPermaLink="false">http://www.universocriativo.com/blog/?p=2498</guid>
		<description><![CDATA[&#160; &#160; E eu ainda fui bacaninha. Porque basta que se pronunciem palavras como xoxota, transa ou outras até mais cabeludas para que um tipo de mulher fique boquiaberto. Boceta, por exemplo, nem pensar. Surge um tal hipócrita de ai, você não pode falar essas coisas! ou o clássico homem só pensa naquilo! que chega a enojar. É que, [...]]]></description>
				<content:encoded><![CDATA[<p>&nbsp;</p>
<p style="text-align: justify;"><img class="aligncenter size-full wp-image-2517" alt="xoxotinha" src="http://www.universocriativo.com/blog/wp-content/uploads/xoxotinha.jpg" width="420" height="200" /></p>
<p>&nbsp;</p>
<p style="text-align: justify;">E eu ainda fui bacaninha. Porque basta que se pronunciem palavras como <em>xoxota</em>, <em>transa </em>ou outras até mais cabeludas para que um tipo de mulher fique boquiaberto. <em>Boceta</em>, por exemplo, nem pensar. Surge um tal hipócrita de <em>ai, você não pode falar essas coisas! </em>ou o clássico <em>homem só pensa naquilo!</em> que chega a enojar<em>.</em> É que, na prática, sob meu ponto de vista, mulheres e homens são animais racionais e fundamentalmente selvagens que vivem em sociedade. E, sendo assim — um bando de selvagens pensantes atolados numa porção generosa de valores sociais —, homens e mulheres precisam buscar o equilíbrio entre dois critérios — o social e o selvagem — para bem conviver individualmente e com os outros. O critério social diz respeito às ações que são socialmente aceitas e que regem o dia-a-dia do convívio em sociedade, tal como <em>ser santinha</em> e bem vestida, no caso das mulheres, e bem-sucedido, no caso dos homens; já o critério selvagem refere-se à condição instintiva, inata, por meio da qual pessoas expõem as emoções involuntariamente e sentem, por exemplo, a tal vontade-de-apertar-o-foda-se ou mesmo uma atração sexual incontrolável pelo proibido. [...] Acontece que, de tempos para cá, a maior fatia dos homens, ainda que tachada justamente de idiota e supérflua, aproximou-se da estabilidade, tanto a selvagem quanto a social; muitas mulheres, no entanto — muitas mesmo! — vêm passando por uma grave crise existencialista, com sangrentos conflitos, em si, entre o social e o selvagem. Em suma, enquanto o homem de certa forma se equilibrou quanto às questões selvagem-sociais, a mulher virou uma espécie de protagonista bêbada, cambaleando desorganizadamente entre a madame socialmente correta e a fêmea no cio. É quase um paradoxo: de um lado, essa tal mulher sugere que não pronunciemos palavras como <em>xoxota</em>; de outro, ela está sempre disposta a telefonar para um macho alfa ou trocar duas mensagens num desses chats modernos via celular para, à espreita, empinar o complexo bunda-xoxotinha e rebolar até o chão ou até outro objeto pontiagudo qualquer, como a boquinha de uma garrafa. Resultado dessa crise é o surgimento de um novo tipo de mulher dentre os muitos que por aí existem: a mulher-xoxotinha. O pior: surgiram muitas delas, em quantidade suficiente para deturpar toda uma sociedade. Daí a &#8220;teoria&#8221; que aqui defendo: <em>neste mundo, mulheres-xoxotinha são responsáveis por boa parcela do caos</em>.</p>
<p style="text-align: justify;">A conta me parece simples. Há algum tempo, penso, a mulher conseguia equilibrar melhor os seus critérios. Quanto ao aspecto selvagem, não há dúvidas de que o exercia; mulheres constituíam, por exemplo, famílias bem grandes, muitas vezes ultrapassando a incrível marca de dez filhos. Já quanto ao aspecto social, a mulher era também mais bem definida; afinal, não era assim, de uma hora para outra, que um ser do sexo masculino a penetrava. Evidente, há algumas gerações as mulheres eram mais duras na queda, com os aspectos selvagem e social melhor definidos, desagregados. O tempo passou e, certamente em função da pressão que sofriam à época, as coisas mudaram. A mulher foi se tornando mais independente, passou a brigar justamente — no sentido de justiça — por igualdade de condições; acabou conquistando espaços nos quais nunca havia sequer pisado. Melhores contextos, liberdade para o trabalho e para o voto, independência financeira e mais autonomia na relação amorosa. Vieram os benefícios, mas também o ônus da conquista. Desorganizadas e desprotegidas, muitas exageraram na dose e passaram a se desequilibrar. Na prática, muitas mulheres passaram a respeitar mais os desejos selvagens instintivos, que iam além de somente dar a mão nos primeiros encontros, e entraram em crise profunda com a esfera social, posto que esta não aceitava as mudanças. Então, dispostas a solucionar a crise que as assolavam, definiram-se: surgia ali um tipo marginal de mulher que até hoje é atraente às vistas da selvageria masculina, ao mesmo tempo em que é essencialmente descabida de pudor social: a vadia, que vive a vadiar marginalmente, à mercê de seus instintos e sem se importar com a percepção que a sociedade tem sobre ela. Definiu-se assim, resolveu-se com a própria crise. [...] Para algumas outras, porém, a solução não era boa o suficiente; afinal, e a aceitabilidade social? Larápias, elas também foram se abrindo ao socialmente proibido e vivenciando a selvageria à sua moda, sem escrúpulos; mas no aspecto social, justamente pelos deslizes no aspecto selvagem, foram se tornando hipócritas e omissas. Mentiam, escondiam. <em>Bingo!</em> Enfim, uma solução plausível: era possível viver a selvageria sem limites e ainda assim ser aceita socialmente. <em>Santa por fora, vadia por dentro</em>. Surgia a mulher-xoxotinha, atualmente em voga e que geralmente detesta falar de sexo, mas que rala à meia-luz como nenhuma outra, que diz buscar o príncipe encantado, mas não resiste a um SMS do <em>personal trainer —</em> sim, o da barriguinha de tanquinho! — convidando-a para uma noite de exercícios especiais para os glúteos, ou mesmo aquela que, embora casada, vive com vontade de marcar uns pulinhos de cerca para experimentar aquela dita fantasia não-dita ao marido simplesmente porque a sociedade não aceita. Surgia ali, enfim, a mulher-xoxotinha, a mesma que anos depois usaria o Facebook para bem ilustrar suas principais características: na <em>timeline</em>, um mundo de belezas; na <em>inbox</em>, a menina selvagem, socialmente má. Nem boa, nem ruim; ela é assim.</p>
<p style="text-align: justify;">Hoje, um fim-de-mundo sem igual: nos extremos da escala estão, de um lado, as mulheres bem definidas — também socialmente conhecidas como <em>mulheres-para-casar</em> —; de outro, as vadias assumidas; no meio, uma multidão nunca antes vista de mulheres-xoxotinha que andam detonando o paradigma das boas relações amorosas, entupindo a cabeça dos homens de necessidades supérfluas, abarrotando as academias de ginástica, expondo-se na TV como sensuais-mas-de-família, impulsionando ladrões e corruptos a roubarem por bons carros e casas — afinal, lá no fundo é isso que valorizam! —, andam fortalecendo ainda mais a descrença quanto ao casamento e o já quase extinto romantismo, fingindo segurança através de suas roupinhas da moda, banalizando as relações de trabalho, etc³. Elas estão por aí, pulando as cercas, trocando SMSs, mentindo e omitindo. [...] Ninguém vê, mas o mundo sente.</p>
<p style="text-align: justify;"><strong>À guerra!</strong></p>
]]></content:encoded>
			<wfw:commentRss>http://www.universocriativo.com/blog/?feed=rss2&#038;p=2498</wfw:commentRss>
		<slash:comments>2</slash:comments>
		</item>
		<item>
		<title>Emanuel</title>
		<link>http://www.universocriativo.com/blog/?p=2449</link>
		<comments>http://www.universocriativo.com/blog/?p=2449#comments</comments>
		<pubDate>Mon, 12 Nov 2012 03:31:22 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Willian Girarde</dc:creator>
				<category><![CDATA[Meus amores]]></category>
		<category><![CDATA[Minha Família]]></category>

		<guid isPermaLink="false">http://www.universocriativo.com/blog/?p=2449</guid>
		<description><![CDATA[&#160; &#160; Não é comum, hoje em dia, que se coloque o nome ao próprio filho de Emanuel; é nome antigo, concordo, como os que denominaram crianças em 1920, hoje avós. Ainda assim, e mesmo com a possibilidade de que seja chamado de Mané pelos seus, meu filho levará o nome Emanuel. Emanuel Girarde, talvez com [...]]]></description>
				<content:encoded><![CDATA[<p>&nbsp;</p>
<p style="text-align: justify;"><a href="http://www.universocriativo.com/blog/wp-content/uploads/emanuel.jpg"><img class="aligncenter size-full wp-image-2470" title="Emanuel" src="http://www.universocriativo.com/blog/wp-content/uploads/emanuel.jpg" alt="" width="420" height="200" /></a></p>
<p>&nbsp;</p>
<p style="text-align: justify;">Não é comum, hoje em dia, que se coloque o nome ao próprio filho de Emanuel; é nome antigo, concordo, como os que denominaram crianças em 1920, hoje avós. Ainda assim, e mesmo com a possibilidade de que seja chamado de <em>Mané</em> pelos seus, meu filho levará o nome Emanuel. Emanuel Girarde, talvez com algum outro sobrenome no meio. O motivo é nobre, amado filho — e agora, embora você ainda não exista, volto-me a ti pela primeira vez —: a origem de seu nome é hebraica e, quando traduzido, significa <em>Deus está conosco</em>. Daí sua nobreza. E sendo assim, Emanuel, não nos importa, portanto, que o nome seja tão belo; importa, sim, o seu significado. <em>Emanuel</em>. [...] A refletir, decidi que o primeiro de meus textos destinado exclusivamente a ti visa lhe apontar alguns caminhos. Não que sejam os mais verdadeiros e consideráveis caminhos, mas talvez ainda válidos em sua geração, mesmo que tão <del>tão</del> distante.</p>
<p style="text-align: justify;">Sobretudo, Emanuel, valorize a sua família e os seus amigos. Porque todo elemento que estiver num conjunto externo ao conjunto de seus amigos e de sua família, meu filho, não é elemento fundamental o suficiente. Aqui, enfatizo: quando eu digo sobretudo, digo porque a vida comumente nos apresenta — em frequência altíssima! — muitos atrativos aparentemente mais interessantes do que uma tarde em família ou uma conversa entre amigos. Então, abocanhados pela tentação, substituímos o fundamental pelo supérfluo. Somente para que melhor entenda, uma tarde em frente a um computador — ou qualquer que seja o nome do dispositivo que o conecta à internet —, algumas horas em frente a um <em>videogame</em> ou mesmo um bate-papo à toa com a menina que você tanto gosta, por exemplo, nunca serão suficientes para substituí-los à altura. Sobretudo, filho, valorize sua família e os seus amigos porque eles realmente estarão ao seu lado nos momentos em que mais necessitar, nas horas em que você mais precisar de uma mão forte para lhe ajudar a levantar, a dar uma sacudida e seguir em frente. Valorize-os porque eles tem amam de verdade, sem quaisquer interesses. [...] E se um dia, meu caro, você resolver constituir a própria família, saiba bem que deverá encarar tal sonho como algo sério, ou seja, algo que não deve servir de prenda, sob nenhuma hipótese, nos leilões à toa que são promovidos por aí. Isso significa que você não deve se empuleirar com qualquer bonitinha que lhe aparecer bem vestida, com o corpinho sarado, toda oferecida, a arrebitar o traseiro em sua direção. Não a sobreponha em sua escala de importância. Aqui, meu filho, assim como no apontamento anterior, é a sua futura família que deve estar em primeiro lugar na mente, não o <em>status</em> ou a beleza de sua mulher. Fuja, portanto, dos leilões de sonhos que provavelmente seus amigos promovem junto às mais bonitinhas de sua turma; ao invés disso, escolha uma mulher admirável que sonhe tão alto quanto você, abrace-a forte e siga com ela em frente, superando os obstáculos que defrontarem o relacionamento de vocês, dia após dia. [...] Pratique esportes e torça para o São Paulo Futebol Clube, ainda que sua querida mãe torça para o Santos ou para Corinthians. É que, caso você não o faça, perderá oportunidades de ir a estádios de futebol comigo. E eu posso lhe afirmar, pelas experiências que tive com seu avô, que gritar gol ao lado do pai é uma das sensações mais bacanas que existem. Além do mais, considerando o dia em que escrevo este texto, o tricolor paulista é o time mais vencedor do Brasil. [...] Aprenda a gostar de ler e leia muito na adolescência. Se o fizer, praticamente excluirá de si a petulância típica dos adolescentes e instalará um catalisador em seu sistema mental, com o qual as coisas serão mais rápidas! [...] Na dura caminhada, Emanuel, exceto no caso em que estiver numa improvável e remota era gerida por um sistema menos obsoleto que o capitalista, você precisará de dinheiro. Dinheiro para o cotidiano, dinheiro para se divertir, para fazer compras e para comprar seu primeiro um-ponto-zero e subsequentes carros, mas não só; principalmente, precisará de dinheiro para manter a guarida de sua família. Decerto você também chegará à faixa etária em que vislumbrará a aquisição de um carro esportivo, a mansão de seus sonhos, ou mesmo na fase em que projetará uma conta bancária recheada, com sobras para investimento em renda variável. Sugiro, Emanuel, independente do tamanho de seus sonhos, que você faça boas escolhas profissionais e tenha o pé no chão para não se frustar. Por um lado, se optar por ser funcionário, siga à risca o protocolo do mercado e seja proativo, sempre estudando bastante e à frente de outros profissionais; por outro, se optar por empreender — como seu pai —, prepare-se para sofrer com a falta de dinheiro e estrutura no início dos tempos, bem como para lidar com a pressão por resultados imediatos, que, justamente por serem imediatos, são praticamente impossíveis de se conquistar <em>num só clique</em>. Em relação ao dinheiro, meu filho, tenha muita paciência, pois o alcance da estabilidade na vida financeira acontece aos poucos, bem aos poucos, tijolo por tijolo. Esteja ciente, entretanto, que, apesar de sempre pressioná-lo para que cresça nesse sentido, eu sempre estarei ao seu lado nas épocas de vacas magras, exatamente como ao meu lado seus avós estiveram. [...] No decorrer da vida, Emanuel, não guarde nenhum tipo de rancor. Afirmo-lhe com propriedade que rancor é o pior sentimento da face da Terra, um típico <em>estraga-vidas</em>. Assim, se porventura nós discutirmos, brigarmos e as cabeças pegarem fogo, façamos as pazes em, no máximo, 24 horas. Esqueçamos sem traumas a experiência ruim porque, afinal, nossa família será sempre maior. [...] E, por fim, meu filho, prepare-se para os tempos em que nossos papeis naturalmente vão se inverter: eu cuidarei de ti até me tornar mais fraco e, então, será a sua hora de cuidar de mim e de sua querida mãe. Quando essa época chegar, acompanhe-nos, esteja ao nosso lado. Nós precisaremos.</p>
<p>Não que os caminhos sejam os mais consideráveis, querido filho. Não tenho dúvidas de que cada qual os próprios caminhos traça. Talvez estes aqui descritos sejam válidos não só para ti, mas também para mim. É que, hoje, os caminhos que por aqui sigo são por ti, por Sofia. São caminhos que traço somente para encontrá-los em breve, logo mais, para um forte abraço e por toda uma vida em família. Com sabedoria e junto a Deus.</p>
<p style="text-align: justify;"><strong>Espero-te, filho.</strong></p>
]]></content:encoded>
			<wfw:commentRss>http://www.universocriativo.com/blog/?feed=rss2&#038;p=2449</wfw:commentRss>
		<slash:comments>1</slash:comments>
		</item>
		<item>
		<title>Xilindró</title>
		<link>http://www.universocriativo.com/blog/?p=2271</link>
		<comments>http://www.universocriativo.com/blog/?p=2271#comments</comments>
		<pubDate>Fri, 02 Nov 2012 19:30:31 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Willian Girarde</dc:creator>
				<category><![CDATA[Pensamentos]]></category>

		<guid isPermaLink="false">http://www.universocriativo.com/blog/?p=2271</guid>
		<description><![CDATA[&#160; &#160; De onde escrevo, sozinho observo. 18h30 de uma sexta-feira, segundo dia do mês de novembro, 2012, finados, e eu estou a aguardar uma amiga numa unidade brasileira da Starbucks — aquela famosa boutique de cafés norteamericana —, de onde, repito, sozinho observo. Noutro dia, também daqui, assim como agora, tive a clara impressão [...]]]></description>
				<content:encoded><![CDATA[<p>&nbsp;</p>
<p style="text-align: justify;"><a href="http://www.universocriativo.com/blog/wp-content/uploads/xilindro.jpg"><img class="aligncenter size-full wp-image-2447" title="Xilindró" src="http://www.universocriativo.com/blog/wp-content/uploads/xilindro.jpg" alt="" width="420" height="200" /></a></p>
<p>&nbsp;</p>
<p style="text-align: justify;">De onde escrevo, sozinho observo. 18h30 de uma sexta-feira, segundo dia do mês de novembro, 2012, finados, e eu estou a aguardar uma amiga numa unidade brasileira da Starbucks — aquela famosa <em>boutique</em> de cafés norteamericana —, de onde, repito, sozinho observo. Noutro dia, também daqui, assim como agora, tive a clara impressão de que estamos presos. Com o perdão da demagogia, presos a nós mesmos. Daqui, de onde estou, já não tenho dúvidas de que, exceto por uma revolução no modo de pensar, o ser humano passou a ser prisioneiro de si; vive hoje como se o mundo girasse em torno de seu próprio eixo — ainda que, no peculiar caso, o tal eixo seja a própria cabeça, o diafragma, o bucho, a ponta do nariz ou mesmo a sola do pé. [...] Parece-me, inclusive, que a justifcativa deste texto está mais na mensagem que pretende pôr à prova do que na efetiva preocupação que tenho com os desconhecidos que aqui comigo estão, fato que, por si, de certa forma já me insere ao contexto que estou prestes a descrever. Também não escrevo somente pelo incômodo, mas sobretudo pela vontade que tenho de simplesmente retratar uma condição histórica, quiçá a ser lida por alguém em época mais adiante, provavelmente em condições diferentes, sejam elas melhores ou piores, saber-se-á somente lá. A mensagem diz respeito às novas condições por meio das quais fomos reprogramados, por meio das quais voltamos ao xilindró.</p>
<p style="text-align: justify;">Antes, há dois séculos, um tempo nem tão diferente. Dica de leitura, o livro <em>1808</em> retrata a vinda da corte real portuguesa ao Brasil e seus impactos no atual molde geopolítico do país, que certamente teria sido outro se D. João e o núcleo de sua família por aqui não tivessem estado ao longo de longos 13 anos. Longos, explico, porque, dizem, os anos entre 1808 e 1821 compuseram um dos períodos mais impressionantes da história brasileira. Por um lado, muito em função da abertura dos portos e da imposição de valores europeus à cultura brasileira, evoluímos na educação, na infraestrutura, nos trâmites do comércio e pudemos vivenciar um quê da liberdade que nos levou, um ano depois do retorno da bendita corte às suas terras, à independência de Portugal, em 1822; por outro, o período foi o berço da politicagem e do nepotismo no Brasil, da ideia de ociosidade no trabalho e da exploração ainda maior de negros desafort<em></em>unados, escravizados à época, tidos como <em>burros-de-carga</em>. Presos. [...] À luz daquela época, surgia a aristocracia no Brasil, potencializava-se a desigualdade social, a corrupção, a idolatria das sextas-feiras e o foco na individualização dos interesses.</p>
<p style="text-align: justify;"><em>Hoje</em>. Liquidificadores produzindo <em>frappuccinos</em>, duas dezenas de <em>notebooks</em> abertos, papos do tipo <em>conte-me-mais</em>, altos tons de voz, tons de cinza, um <em>muffin</em> nojentamente mascado pelo <em>homem-seguro-de-meia-idade</em>, risadas forçadas ao fôlego da aceitabilidade social, cafés a $12,90, bolsas falsas e óculos-escuros comprados em seis vezes sem juros no Visa. <em>Um bando longe de si</em>. Aparentemente ideal, o ambiente aqui é, na verdade, bastante barulhento, caótico como os nossos ares, longe de ser agradável aos olhos de quem sobre ele reflete. Em altíssima resolução, é o retrato mais límpido possível de um quilombo contemporâneo, um novo Palmares concebido por modernos <em>designers</em> de interiores e aclimado com um ar <em>engana-trouxa</em> ao nível de agradáveis 22 Celsius. Nele, somos um bando de seres negros e brancos enfiados em roupas xadrez <em>made in Brás</em> devidamente engomadas e etiquetadas para justificar o elevado preço da vitrine e a percepção de valor claramente errônea por parte do consumidor; aqui, temos <em>smartphones</em> conectados 24/7 às tais redes que tanto nos distanciam, fios de cabelos crespos e alinhados temporariamente à moda de chapinhas baratas da 25 de Março, pois, espivetados, eles não resistem sequer a uma garoa ou a uma boa noite de sono; além, ainda estamos bezuntados em 500 ml de perfumes adocicados, com fragrâncias produzidas às centenas de toneladas nos laboratórios químicos não-sustentáveis que entulham as beiras de rios e rodovias por aí. <em>2012</em>.</p>
<p style="text-align: justify;">Bem verdade, nossa época é bem diferente em muitos aspectos, mas com condições essencialmente semelhantes às vividas no brasil-colônia. É que, de tempos para cá, aquela tal desigualdade social se consolidou e, com ela, também as novas sociedades geridas por um sistema operacional igualmente retrógrado, análogo ao que geria a escravatura. Antes, éramos escravos de outros; hoje, escravos de nossa própria mente, escravos das vontades que temos de conquistar os nossos — e somente nossos — objetivos, de suprir exclusivamente os nossos desejos. No máximo os de nossos mais próximos. [...] De onde escrevo, por fim, sozinho observo: vejo um desfile de seres fortemente preocupados com a própria aparência, encucados com <em>as coisas</em> que os outros vão pensar. Um universo confuso, que não se decide. Aqui, é como se todos fôssemos sóis, com outros sóis girando ao redor do meu eixo, do eixo do outro. Um mundo que parece socialmente bacaninha, mas é fundamentalmente individual; que parece ideal, mas somente parece. E é neste contexto que hoje vivemos: <em>somos os novos escravos, escravos de nós mesmos. </em>Vivemos no mundo do cada um por si: afinal, quem de nós vai bem? Quem de nós vai mais longe? Eu! Eu! [...] <em>Somos burros-de-nossa-própria-carga. Somos, literalmente, meros indivíduos.</em></p>
<p style="text-align: justify;"><strong>Onde estás, Isabel?</strong></p>
]]></content:encoded>
			<wfw:commentRss>http://www.universocriativo.com/blog/?feed=rss2&#038;p=2271</wfw:commentRss>
		<slash:comments>0</slash:comments>
		</item>
		<item>
		<title>Muito mais além</title>
		<link>http://www.universocriativo.com/blog/?p=2325</link>
		<comments>http://www.universocriativo.com/blog/?p=2325#comments</comments>
		<pubDate>Fri, 17 Aug 2012 05:36:00 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Willian Girarde</dc:creator>
				<category><![CDATA[Meus amores]]></category>
		<category><![CDATA[Pensamentos]]></category>

		<guid isPermaLink="false">http://www.universocriativo.com/blog/?p=2325</guid>
		<description><![CDATA[&#160; &#160; Somente os homens de sorte são capazes de, numa noite clara,  encontrar um ponto a partir do qual seja possível enxergar o céu com clareza de detalhes. Não aquele pretume absoluto, mas o céu imenso, intenso, farto de estrelas. E mesmo com todo ele à frente, completo, há quem acredite que o céu tem [...]]]></description>
				<content:encoded><![CDATA[<div align="justify">
<p>&nbsp;</p>
<p><a href="http://www.universocriativo.com/blog/wp-content/uploads/além.jpg"><img class="aligncenter size-full wp-image-2340" title="Muito mais além" src="http://www.universocriativo.com/blog/wp-content/uploads/além.jpg" alt="" width="420" height="200" /></a></p>
<p>&nbsp;</p>
<p>Somente os homens de sorte são capazes de, numa noite clara,  encontrar um ponto a partir do qual seja possível enxergar o céu com clareza de detalhes. Não aquele pretume absoluto, mas o céu imenso, intenso, farto de estrelas. E mesmo com todo ele à frente, completo, há quem acredite que o céu tem fim, que pára numa parede, fica intransponível num limite sólido o suficiente para impedir que alguém dali passe. <em>Mentira.</em> A esses — os céticos — posso afirmar com certa segurança: <strong>o céu não tem limite</strong>. [...] A evidência que comprova tal afirmação não está no que se diz por aí cientificamente. Muito pelo contrário: ela me apareceu num restaurante, no decorrer de uma conversa incrível. E o mais curioso: num restaurante sem vista para o céu.</p>
<p>Desde muito cedo, coitados, somos levados a acreditar que tudo tem limite: aprendemos na escola que o planeta nonde vivemos é cortado por trópicos imaginários e os países que o compõe, limitados por fronteiras também imaginárias. À medida que crescemos, somos moldados à luz das normas e dos diferentes costumes culturais. Respeitamos regras na família, criamos relações ciumentas do tipo <em>isso-pode, isso-não-pode</em> e ainda vivemos sob a égide dos alienantes códigos de conduta no trabalho. Em tudo há limite, por todos os lados: do crédito concedido pelos bancos às possibilidades de recordes no esporte olimpico; da capacidade produtiva à nossa mais vã paciência. [..] E mesmo quando nos estimulam a <em>superar os</em> <em>limites</em>, é preciso considerá-los para que haja a tal superação. É como se o mundo não funcionasse sem os limites.</p>
<p>Na prática, porém, não é bem assim: o mundo vive muito bem sem muitos deles, até porque todo limite tem seu contraponto desmoralizante. Para alguns, por exemplo, manter relações com o amor antigo é um fator limitador para que se conquiste um novo; para outros, contudo, abrir o coração ao novo é uma das formas de se desvencilhar do antigo. Mesmo a morte, vista como o mais tenebroso ponto final, pode ser encarada como limite da vida por muitos ou como ponto de partida de um novo ciclo por outros. Nas primeiras percepções, o limite; nas segundas, a impulsão. [...] Em suma, limitar é ação mental.</p>
<p>Entendi, por fim, que muitos de nossos limites são frutos de crenças infundadas, ou seja, são limites imaginários. No fundo, nem tão fundo assim, nunca existiu um limite para o encontro de um novo amor, novas amizades, novas culturas e novos assuntos. Exceto pela crença infundada de que seguir em frente é, por si, um limite, nada nos impede de seguir em frente, viver novas experiências e, ao fim, rir do passado, seja ele bom ou ruim. [...] Ontem, lá no restaurante, fui homem de sorte. Conectei-me a um ponto a partir do qual foi possível ver tudo de um modo diferente, sob outra ótica. Quebrou-se o limite. Foi como olhar para o céu e, por sorte, deparar-me com o imenso, o intenso, com a fartura de estrelas. Sem limite, sem fim. Tudo de novo.</p>
<p><strong>Fui muito mais além.</strong>
</div>
]]></content:encoded>
			<wfw:commentRss>http://www.universocriativo.com/blog/?feed=rss2&#038;p=2325</wfw:commentRss>
		<slash:comments>1</slash:comments>
		</item>
		<item>
		<title>A fábrica de giz</title>
		<link>http://www.universocriativo.com/blog/?p=2273</link>
		<comments>http://www.universocriativo.com/blog/?p=2273#comments</comments>
		<pubDate>Mon, 02 Jul 2012 05:23:36 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Willian Girarde</dc:creator>
				<category><![CDATA[O Indivíduo]]></category>
		<category><![CDATA[Pensamentos]]></category>

		<guid isPermaLink="false">http://www.universocriativo.com/blog/?p=2273</guid>
		<description><![CDATA[&#160; &#160; Cobrindo a rua sem saída, enterrados lado a lado, paralelepípedos. Decerto a aplicação de asfalto ali não se justificava pelo baixo movimento, decisão que perdura até hoje. Era a ruinha, um campo improvisado de futebol — e também das batalhas de pega-pega, esconde-esconde, etc. — no coração do bairro onde cresci. No chão, contávamos quatro [...]]]></description>
				<content:encoded><![CDATA[<p>&nbsp;</p>
<p style="text-align: justify;"><a href="http://www.universocriativo.com/blog/wp-content/uploads/giz1.jpg"><img class="aligncenter size-full wp-image-2302" title="A fábrica de giz" src="http://www.universocriativo.com/blog/wp-content/uploads/giz1.jpg" alt="" width="420" height="200" /></a></p>
<p>&nbsp;</p>
<p style="text-align: justify;">Cobrindo a rua sem saída, enterrados lado a lado, paralelepípedos. Decerto a aplicação de asfalto ali não se justificava pelo baixo movimento, decisão que perdura até hoje. Era a <em>ruinha</em>, um campo improvisado de futebol — e também das batalhas de pega-pega, esconde-esconde, etc. — no coração do bairro onde cresci. No chão, contávamos quatro pedregulhos ou pés, que enfileirados distanciavam um chinelo de outro, a medida do gol. Pela justiça, preferíamos os paralelepípedos aos pés, estes nem todos do mesmo tamanho. Bastavam, portanto, quatro chinelos, dois times de moleques e uma bola velha; quando muito, uma ou outra garota completavam a brincadeira. Por fim, por inteiros muitos dias dos derradeiros 80s e início dos 90, formávamos um bando de crianças pernas-de-pau — parece-me o coletivo mais justo — a gritar, cada qual na sua posição, atacante, goleador ou não; toda uma infância de bate-bola saudável e amizade.</p>
<p style="text-align: justify;">Onde a <em>ruinha</em> não tinha fim, havia uma espécie de rotatória — um círculo de pedra no qual motoristas perdidos podiam manobrar para o retorno à avenida principal — e um muro bem alto que separava o <em>campo</em> de uma fábrica de giz praticamente desativada. Para lá, por sobre o tal muro, voavam as bolas dos que erravam um chute mais forte, ou pior, dos que as embicavam sem dó por pura falta de talento. E para lá não voaram poucas, que eram prontamente substituídas, ao menos até que um de nossos pais nos comprassem outra de capotão, por bolas malfeitas de papel, por outra brincadeira qualquer ou, principalmente quando os ponteiros beiravam as seis do fim da tarde, por um simples<em> tchau, vou entrar, logo minha mãe me chama</em>. Os anos se passavam e para lá, por sobre o muro, continuavam a voar as bolas que lá ficavam porque, à época já desativada, a fábrica de giz nem seguranças noturnos tinha mais, sequer os cães bravos típicos das placas de alerta. Lá, às escuras, as bolas de capotão e papel pereciam. [...] Então, sem que eu pudesse conhecer algum trabalhador ou empresário dali, cresci. Ao longo de toda a minha adolescência havia um estigma de que a tal fábrica era fantasma. E bem que parecia. Foi somente quando eu já beirava os 30 que ela desapareceu definitivamente. A fábrica de giz tinha sido, enfim, comprada por uma construtora e seria varrida pelos braços de aço dos tratores. Saíam os gizes, entravam os prédios. Era o fim da esperança de resgatar ao menos uma de nossas bolas perdidas. Mais uma vez, como para sempre acontecerá, a história se alterava.</p>
<p style="text-align: justify;">Há pouco, perplexo, passei a pé em frente ao local onde jaz a saudosa fábrica de giz. Enfincados no local já estão sete ou oito prédios residenciais onde morarão, em poucos meses, milhares de pessoas. Ali — afinal, em nossos tempos poucos investiriam num produto tão obsoleto —, nunca mais haverá uma fábrica de giz. Também, exceto em meus devaneios, não voltarei a ser criança. Porque, via de regra, as coisas mudam. Num dia, rua e futebol; noutro, mais adiante, trabalho e internet. Num dia, pais jovens e enérgicos; noutro, os mesmos, mas com cabelos brancos e carentes da ajuda dos filhos. Num dia, uma relação aparentemente eterna; noutro, outra relação ainda melhor para substituir a anterior. Num dia, aqui; noutro, como num lapso, a morte e a estadia não mais por aqui, mas acolá. [...] Enfim, é preciso aceitar mudanças porque, via de regra, mudam a época, a cor das fotos, as pessoas ao redor, os amigos, o trabalho, a rotina, a elasticidade da pele, o jeito de pensar e agir, a configuração dos móveis ou a própria casa; mudam as cidades, as pessoas, as formas de se entreter, a comunicação, as brincadeiras, as crianças, muda a vida. Muda tudo, tudo muda, todo o tempo. [...] Num dia, giz; noutro, um tipo de caneta com tinta apagável.</p>
<p style="text-align: justify;"><strong>Apaguemos a lousa. Há sempre novos conteúdos.</strong></p>
]]></content:encoded>
			<wfw:commentRss>http://www.universocriativo.com/blog/?feed=rss2&#038;p=2273</wfw:commentRss>
		<slash:comments>0</slash:comments>
		</item>
		<item>
		<title>Crise do entusiasmo</title>
		<link>http://www.universocriativo.com/blog/?p=2242</link>
		<comments>http://www.universocriativo.com/blog/?p=2242#comments</comments>
		<pubDate>Tue, 05 Jun 2012 03:35:53 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Willian Girarde</dc:creator>
				<category><![CDATA[O Cérebro]]></category>

		<guid isPermaLink="false">http://www.universocriativo.com/blog/?p=2242</guid>
		<description><![CDATA[&#160; &#160; É como se a Terra, de uma hora para outra, tivesse se transformado no paraíso (?) — o próprio. De repente, de supetão, de bate-pronto, dezenas de caminhões passaram a descarregar, segundo a segundo, toneladas de mensagens de otimismo nas redes sociais, nos livros, na TV, nos discursos, n&#8217;todo lugar. São milhares e milhares que [...]]]></description>
				<content:encoded><![CDATA[<p>&nbsp;</p>
<p style="text-align: justify;"><a href="http://www.universocriativo.com/blog/wp-content/uploads/sorriso-perfeito.jpg"><img class="aligncenter size-full wp-image-2256" title="Entusiasmo?" src="http://www.universocriativo.com/blog/wp-content/uploads/sorriso-perfeito.jpg" alt="" width="420" height="200" /></a></p>
<p>&nbsp;</p>
<p style="text-align: justify;">É como se a Terra, de uma hora para outra, tivesse se transformado no <strong>paraíso</strong> (?) — o próprio. De repente, de supetão, de bate-pronto, dezenas de caminhões passaram a descarregar, segundo a segundo, toneladas de mensagens de otimismo nas redes sociais, nos livros, na TV, nos discursos, n&#8217;todo lugar. São milhares e milhares que se dizem absolutamente crentes no poder divino, límpidas e leves como a água Bonafont. Uma filosofia do sabe-nada, dos versos e versões <em>paraguayos</em> de Drummond e Lispector. É um tal de superar dificuldades, do amor sobre todas as coisas, o amor sem falhas, da valorização da beleza interior, dos sorrisos-Colgate em ambientes perfeitos, da aclamação da leitura e da cultura, da fidelidade, do ser-diferente; um tal de defender a igualdade racial, proteger o meio ambiente e sustentá-lo como produto-fim da criação divina. Um <em>arco-íris do existir</em> que, ao invés de paraíso, mais se configura como uma gruta ou uma iguaria fétida coberta por um apanhado generoso de baboseiras, falsidades à toa e uma cereja <em>paraguaya</em> — daquelas que mais se parecem com uma gelatina — no topo.</p>
<p style="text-align: justify;">A etimologia da palavra nos remete a um estado otimista do espírito: <strong><em>entusiasmo</em></strong> vem do grego e significa, literalmente, <em><strong>em Deus</strong></em>. Aqui, neste feio mundinho, vivemos a sua crise — <span style="text-decoration: underline;">a crise do entusiasmo</span> —, uma resultante natural da característica mais visível em muitos dos seres que por aqui caminham: a <strong>incoerência</strong>. É que sob a máscara do <em>spammer</em>, o tal a nos enviar ininterruptamente toneladas de mensagens de otimismo, geralmente está uma pessoa incoerente e que não aplica em vida as palavras tão compartilhadas nos <em>faces</em> da vida. Não é raro identificar, por exemplo, um rancoroso — do tipo que não perdoa e carrega sentimentos de ódio por longos anos — apregoando o perdão e os votos de paz e amor eterno nas relações. Vejo uma ali aclamando a fidelidade, <em>danadinha</em>, ao mesmo tempo em que aguarda a viagem de negócios do marido para pular a cerca. Acolá, um interesseiro de primeira categoria envia mensagens em favor do verde, da Terra-de-meu-Deus, mas nem tanto; manda-nos, na verdade, muito mais em favor de que digitemos seu número e apertemos o botão verde, <em>bem verdinho</em>, o do confirma, à época das eleições. Defronte ao computador, uma senhorita envia aos nascidos no dia — porque, convenhamos, a ferramenta facilita — uma lista enorme de <em>Parabéns!</em> na base do <em>control C</em> + <em>control V</em>, muito mais com o intuito de manter a boa imagem do que para realmente parabenizá-los. Por aqui também não é raro identificar profissionais frustrados ou indivíduos depressivos que nas redes, nas fotos, nos discursos, perfumam-se como se em Beverly Hills ou em Chicago. <em>Falso testemunho.</em> Dizem, recomenda-se que nessas horas haja uma conversa profunda com Deus. Pois ao invés de fazê-lo, de fato e em silêncio, que tal um &#8220;Obrigado, Senhor!&#8221; em troca de alguns cliques-curtir? Acontece. E acontece muito mais.</p>
<p style="text-align: justify;">Se por aqui tudo há, todo esse otimismo, por que continuamos em crise? Por que o tal otimismo não nos leva, de fato, às relações e aos atos de amor puro? Por que, sendo o mundo assim tão divino e com pessoas tão aparentemente belas, os relacionamentos não perduram — ou pior, quando perduram, seguem às trancas e barrancas? Por que muitos dentre os que falsamente creem — aqui classificados como <em>spammers</em> — comportam-se de modo tão diferente na vida real? Por que a beleza das fotos não reflete o que vemos no comportamento do dia-a-dia? Por que o mundo, mesmo o tão ilusoriamente belo, aparenta estar anos-luz distante dos ditames de Deus? Por que, sendo assim, o tal egoísmo ainda é tão presente? [...] Onde estão os sorrisos-Colgate de verdade? Onde estão os ambientes perfeitos das fotos e das mensagens no Facebook? Onde estão os belos-por-dentro que tão valorizados são? Onde está o nó que desata o problema do racismo e da sustentabilidade no mundo? Enfim, onde estão os benditos livros com páginas encardidas de tanta leitura? Onde?</p>
<p style="text-align: justify;"><strong>No Facebook.</strong></p>
]]></content:encoded>
			<wfw:commentRss>http://www.universocriativo.com/blog/?feed=rss2&#038;p=2242</wfw:commentRss>
		<slash:comments>0</slash:comments>
		</item>
		<item>
		<title>Sofia</title>
		<link>http://www.universocriativo.com/blog/?p=2191</link>
		<comments>http://www.universocriativo.com/blog/?p=2191#comments</comments>
		<pubDate>Sun, 03 Jun 2012 18:51:37 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Willian Girarde</dc:creator>
				<category><![CDATA[Meus amores]]></category>
		<category><![CDATA[Minha Família]]></category>

		<guid isPermaLink="false">http://www.universocriativo.com/blog/?p=2191</guid>
		<description><![CDATA[&#160; &#160; Sofia Girarde. Ou Sofia Alguma-coisa Girarde. Sobretudo, Sofia. Metade disto é dela, para ela: minha filha. Ela não existe e há no mundo às centenas as pessoas que já me disseram ser idealismo demais; afinal, dizem, se pararmos para pensar, o amanhã na verdade não há. Ainda, concordo, realmente não há, digo o amanhã tampouco Sofia, [...]]]></description>
				<content:encoded><![CDATA[<p>&nbsp;</p>
<p style="text-align: justify;"><a href="http://www.universocriativo.com/blog/wp-content/uploads/sofia.jpg"><img class="aligncenter size-full wp-image-2234" title="Sofia" src="http://www.universocriativo.com/blog/wp-content/uploads/sofia.jpg" alt="" width="420" height="200" /></a></p>
<p>&nbsp;</p>
<p style="text-align: justify;"><strong>Sofia Girarde</strong>. Ou Sofia Alguma-coisa Girarde. Sobretudo, Sofia. Metade disto é dela, para ela: <strong>minha filha</strong>. Ela não existe e há no mundo às centenas as pessoas que já me disseram ser idealismo demais; afinal, dizem, se pararmos para pensar, o amanhã na verdade não há. <em>Ainda</em>, concordo, realmente não há, digo o amanhã tampouco Sofia, mas há de existir, se Deus assim o fizer, o amanhã em que ela nascerá. E decerto, filha, — és esta a primeira oração escrita por mim a ti — <em>será o dia mais feliz de minha vida</em>.</p>
<p style="text-align: justify;"><em>Abre pensamento.</em> Com um vestido daqueles que só as mães de bom gosto sabem comprar, branco nos detalhes, bem limpo e que deixa a criança bastante livre, a pequena criança anda pelo parque a brincar. Corre às custas do desespero da mãe. <em>Filha! Pare de correr!</em> Esbarra num, faz o ciclista desviar, segue correndo em direção ao lago enquanto o volume dos gritos da mãe diminuem gradativamente. Com cabelos escuros ondulados e menos esvoaçantes por conta de uma tiara, a maquiagem <em>maleporcamente</em> auto-aplicada, tímidas gotículas de suor sobre a testa e a feição típica das crianças felizes, ela se diverte. Sacode a água, assopra uma dente-de-leão — aquelas flores brancas repletas de sementes que voam  pelos ares —, arremessa pedras na placa de aço e enjoa da brincadeira. Corre para outras com a cabeça ali, não noutro lugar. Porque, para crianças, exceto pelo medo do escuro, do ficar-sozinho, das polícias e dos assustadores monstros do imaginário, as preocupações do mundo não as impedem de se divertir e viver bem à mais perfeita toa. Elas correm de modo inconsequente, brincam como em nenhuma outra época da vida; dançam, pulam, falam alto e pouco se importam com o teor das conversas, contanto que sejam verdadeiras. Têm a imaginação fértil, fantasiosa, mágica. <em>Ufa!</em> E depois de todo um dia, já cansada, a garotinha chega em casa, brinca mais um pouco com os pais, gargalha, depois chora, mas vai ao banho a contragosto. Ali, n&#8217;água, esquece e diverte-se mais um pouco; afinal, quem não se derreteria de tanto brincar numa dessas banheiras para criancinhas? Por fim, deita-se em roupas leves sob a penumbra de um quarto único, com o cheiro e brinquedos só dela. Dormiu a que vive no mundo das crianças e embeleza toda uma família. É protagonista, é filha, professora e mestre em fazer com que os adultos se embasbaquem de felicidade. <strong>É feliz</strong>. <em>Fecha pensamento.</em></p>
<p style="text-align: justify;">Talvez, <strong>Sofia</strong>, este texto <span style="text-decoration: underline;">bobo</span>, que reflete um pouco do que me vem à mente quando penso em ti, não refletirá o que tu serás quando estiver por aqui. <em>Puro idealismo</em>. Ou refletirá, sabe-se lá. É que, confesso, a cada vez que vejo uma pequena garota com feições como as minhas, penso em ti, em como podes ser quando nascer. [...] Importante, porém, além de meus vãos idealismos, é que por você já estou por aqui há 31 anos, mais precisamente. Sim, estou neste mundo — que à sua época certamente será muito mais belo do que este no qual vivo — e tenho a certeza de que, aqui, brincaremos aos montes.</p>
<p style="text-align: justify;"><strong>Espero-te, filha.</strong></p>
]]></content:encoded>
			<wfw:commentRss>http://www.universocriativo.com/blog/?feed=rss2&#038;p=2191</wfw:commentRss>
		<slash:comments>0</slash:comments>
		</item>
		<item>
		<title>There Must Be An Angel</title>
		<link>http://www.universocriativo.com/blog/?p=2195</link>
		<comments>http://www.universocriativo.com/blog/?p=2195#comments</comments>
		<pubDate>Mon, 28 May 2012 05:14:29 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Willian Girarde</dc:creator>
				<category><![CDATA[O Indivíduo]]></category>
		<category><![CDATA[Pensamentos]]></category>

		<guid isPermaLink="false">http://www.universocriativo.com/blog/?p=2195</guid>
		<description><![CDATA[&#160; &#160; Não foi exatamente como entoava a já antiga e afeminada música do Eurythmics, mas acerca. Lá na essência, cá com meus botões, tudo bastante parecido. Foi como, diz a própria música, estar num quarto vazio e, de supetão, minutos antes de se lançar num oco interior, deparar-se por sorte — ou por obra divina, [...]]]></description>
				<content:encoded><![CDATA[<p>&nbsp;</p>
<p style="text-align: justify;"><a href="http://www.universocriativo.com/blog/wp-content/uploads/angel.jpg"><img class="aligncenter size-full wp-image-2205" title="Anja" src="http://www.universocriativo.com/blog/wp-content/uploads/angel.jpg" alt="" width="420" height="200" /></a></p>
<p>&nbsp;</p>
<p style="text-align: justify;">Não foi exatamente como entoava a já antiga e afeminada música do Eurythmics, mas acerca. Lá na essência, cá com meus botões, tudo bastante parecido. Foi como, diz a própria música, estar num quarto vazio e, de supetão, minutos antes de se lançar num oco interior, deparar-se por sorte — ou por obra divina, creio — com uma orquestra de anjos adentrando a porta a remexer, todos eles, o já quase enferrujado lado emocional dos lá trancafiados. Como se a tal voadeira de anjos nos servisse única e exclusivamente para reativar as emoções, os sentimentos, ao ponto de — <em>quem diria?</em> — enciumar até o duro lado racional. [...] Nesta noite, certamente não por acaso, no meu quarto vazio adentrou somente um anjo ao invés de uma multidão deles. <strong>Uma</strong>, no feminino, mas já bastante suficiente. <em>Dúbia</em>, morena, beirando os 30, transparente na expressão e sólida no que dizia, sentou-se à minha frente sem asas, que, por aqui, nesse mundinho, foram substituídas, embora a substituta não a fizesse voar, por uma jaquetinha de couro <em>indefectível</em>, moderninha, com a cara de ser cara. Já diziam pelos 90, ♪ <em>nesse mundinho fechado ela é incrível</em> ♫. Era simples por um lado, azeda e alcoolicamente sonolenta pr&#8217;outro; tinha um lado <em>zen</em> típico dos anjos ao mesmo tempo em que lançava, sem titubear, olhares-43 típicos dos homens. E ela, digo a anja, era encantadora não somente pelo sorriso, pelo perfume ou pela beleza — desde a época da adolescência características nela peculiares —, mas sobretudo pela mensagem divina que trazia, típica dos anjos. Ali, a falar, recitou, como se não soubesse de onde a tal vinha, uma mensagem <strong>mágica</strong> e bem mais completa que a deixada pela música do Eurythmics. Foi mágica tamanha que, de tão bem feita, classificou-se como difícil-de-se-decifrar, difícil-de-se-digerir; foi tão completa que, como toda boa mensagem, preencheu um vazio. [...] Afinal, imagino que sejam essas mesmas as <em>cousas</em> dos anjos: aparecem de repente, entram sem bater, abrem-nos o baú nonde se guardam as essências da vida, enfiam-nos baú abaixo uma mensagem divina, fecham o bendito e o legado fica lá, a sete-chaves. Acabam mexendo com nossa vida sem que percebamos, sem que eles mesmos percebam; de repente porque são bem pagos para isso ou porque Ele — e não me parece interessante desobedecê-lo! — simplesmente quis assim. [...] Enfim, a anja que hoje sentou à minha frente não se encontra em qualquer lugar. É <strong>rara</strong>, encanta, faz as horas passarem às pressas. Fantasia-se de fisioterapeuta só para enganar, disso sei bem. Porque no fundo — nem tão fundo assim — ela senta e diz o que diz, d&#8217;um jeito que só ela sabe, porque a mensagem marca a vida, altera-nos quase que instantaneamente: em suma, <strong>&#8220;<em>peça paz a Deus e agradeça-O</em>&#8220;. </strong>Hoje, além dos pedidos que me são necessários e as mensagens de gratidão que Lho devo, agradecerei também ao sopro que trouxe anjos ao meu quarto vazio. <em>Divino sopro</em>. Agradecerei em especial à ventania que me trouxe a tal anja azeda e sua jaquetinha de couro preto <em>indefectível</em>.</p>
<p style="text-align: justify;"><strong>♪ <em>Must be talking to an angel</em> ♫</strong></p>
]]></content:encoded>
			<wfw:commentRss>http://www.universocriativo.com/blog/?feed=rss2&#038;p=2195</wfw:commentRss>
		<slash:comments>0</slash:comments>
		</item>
		<item>
		<title>Caverna do Dragão</title>
		<link>http://www.universocriativo.com/blog/?p=2146</link>
		<comments>http://www.universocriativo.com/blog/?p=2146#comments</comments>
		<pubDate>Mon, 21 May 2012 03:27:13 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Willian Girarde</dc:creator>
				<category><![CDATA[O Indivíduo]]></category>
		<category><![CDATA[Pensamentos]]></category>

		<guid isPermaLink="false">http://www.universocriativo.com/blog/?p=2146</guid>
		<description><![CDATA[&#160; &#160; Embora, por pura preguiça, eu não consiga comprovar cientificamente, já não tenho dúvidas de que nossa mente flutua; não no ar, mas em dimensões, várias delas. Estou certo, inclusive, de que tais dimensões  são criadas e mantidas a partir da organização das centenas de percepções que temos sobre as coisas da vida — da [...]]]></description>
				<content:encoded><![CDATA[<div align="justify">
<p>&nbsp;</p>
<p><a href="http://www.universocriativo.com/blog/wp-content/uploads/cavernadodragão.jpg"><img src="http://www.universocriativo.com/blog/wp-content/uploads/cavernadodragão.jpg" alt="" title="Mestre dos Magos" width="420" height="200" class="aligncenter size-full wp-image-2170" /></a></p>
<p>&nbsp;</p>
<p>Embora, por pura preguiça, eu não consiga comprovar cientificamente, já não tenho dúvidas de que nossa mente flutua; não no ar, mas em dimensões, várias delas. Estou certo, inclusive, de que tais dimensões  são criadas e mantidas a partir da organização das centenas de percepções que temos sobre as coisas da vida — da crença em Deus, por exemplo, ao medo da mariposa negra, da percepção sobre o que é felicidade à decisão de dormir cedo ou tarde numa noite qualquer. Nosso corpo, portanto, é somente o reflexo das experiências que vivenciamos nas tais dimensões; somente reage às decisões que sozinhos tomamos, às percepções que temos guardadas nas diversas repartições encaixotadas por detrás dos olhos.</p>
<p>Hoje, segunda-feira, estou doente. Ontem estive, anteontem também, tanto ao ponto de não conseguir dormir e sobreviver às custas de comprimidos amargos, um punhado deles. Uma gripe forte, daquelas que, justamente por serem fortes, não se revelam com tanta frequência. <em>Reflexo</em>. É que, digo, a dimensão na qual vivo atualmente não é das mais brandas, e o meu corpo, provavelmente indisposto, talvez esteja simplesmente refletindo tal indisposição. [...] Hoje, vivo numa dimensão em que a plena felicidade é tão utópica que beira o impossível. <em>Indisposição.</em> Nela, as pessoas são iguais, as tribos são iguais, os atos são iguais e o povo vive em crise; uma crise de identidade, de otimismo e benevolência <em>fakes</em>. Não que o ser-igual seja ruim, muito menos as terras em crise. É que, no fim das contas, hoje tudo é meio falso, <em>fake</em>. É um <em>flood</em> de mensagens otimistas sobre o amor, sobre o futuro, sobre a superação, o transpor-obstáculos e o <em>arco-íris do existir</em>. É o prostituir o Santo Nome em vão, ou pior, em imagens no Facebook. É o protocolo exagerado na relação entre pessoas e que as tornam supérfluas o suficiente para levar à discussão destrutiva quaisquer afirmações além-protocolo. É o pobre que se endivida para parecer mais rico; é o rico que desdenha ou se submete a situações ridículas e de extrema humildade para se parecer com o ainda mais rico ou bonito, que seja. São os óculos de Herchcovitch na face de quem não o teria; a foto com o cabelo bonito porque, depois do banho ou da repentina chuva, ela sequer tiraria. É o abrir a porta do carro e levar a um restaurante dos bons porque lá no fundo, bem no fundo, ao invés do romantismo pelo romantismo, este raro nos nossos tempos, talvez ela ceda às tentativas de coito ao fim da noite. É o corpo sarado e o erotismo que conquistam; afinal, diria o ditado já popular: amor que fica é o desse tipo. <em>Amor pra quê?</em> E não me cabe falar aqui, por falta de espaço ou precaução, dos quarentões twitteiros às margens de uma crise ainda maior — a do arrependimento por tanto tempo perdido com os milhares e milhares de tweets mais infantis que o desenho do Pingu — ou dos pré-candidatos que se aviltam em troca de votos. [...] E esta é, por tudo e muito mais, uma dimensão de merda; é, infelizmente, a dimensão na qual vivo.</p>
<p>Nossa mente flutua. Somos, sabe-se lá como, o reflexo de nossas percepções. E nas dimensões que nós mesmos criamos, vivemos. A dimensão na qual vivo, eu disse, é podre, cheira a enxofre e está em crise. Adoeceu-me, inclusive, nos últimos dias. Daqui, meus caros, quero sair, mas daqui, porém, não vejo a luz no fim do túnel. Daqui não vejo a saída sequer por aquela famigerada fenda — decerto porque nunca se pôs como saída, de fato — a ruir entre as pedras gigantes depois de um abalo císmico. [...] Estou aberto às dicas.</p>
<p><strong>Por onde andas, Mestre dos Magos?</strong></div>
]]></content:encoded>
			<wfw:commentRss>http://www.universocriativo.com/blog/?feed=rss2&#038;p=2146</wfw:commentRss>
		<slash:comments>0</slash:comments>
		</item>
		<item>
		<title>Da minha nuvem</title>
		<link>http://www.universocriativo.com/blog/?p=2150</link>
		<comments>http://www.universocriativo.com/blog/?p=2150#comments</comments>
		<pubDate>Wed, 16 May 2012 05:33:58 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Willian Girarde</dc:creator>
				<category><![CDATA[Pensamentos]]></category>

		<guid isPermaLink="false">http://www.universocriativo.com/blog/?p=2150</guid>
		<description><![CDATA[&#160; &#160; A nuvem nonde vivo foi feita para mim: carregada e chuventa, é do tipo que não agrada a ninguém quando desponta no céu. Alta, meio cinza, meio branca. Nimbus. B612 2.0. Daqui vejo um mundo carregado, frio, desorganizado, gerido por um software capenga e abastecido com combustível à base de frustrações dos mais [...]]]></description>
				<content:encoded><![CDATA[<div align="justify">
<p>&nbsp;</p>
<p><a href="http://www.universocriativo.com/blog/wp-content/uploads/cloud.jpg"><img class="aligncenter size-full wp-image-2153" title="cloud" src="http://www.universocriativo.com/blog/wp-content/uploads/cloud.jpg" alt="" width="420" height="200" /></a></p>
<p>&nbsp;</p>
<p>A nuvem nonde vivo foi feita para mim: carregada e chuventa, é do tipo que não agrada a ninguém quando desponta no céu. Alta, meio cinza, meio branca. <em>Nimbus</em>. <em>B612 2.0</em>. Daqui vejo um mundo carregado, frio, <del>des</del>organizado, gerido por um software capenga e abastecido com combustível à base de frustrações dos mais diversos tipos. Um mundo nonde os seres humanos vivem de expectativas, de crise, de aprendizados que não se findam. Daqui — bem uns 12km de altura — é possível enxergar o quanto os valores terrenos foram alterados de tempos para cá; porque, como dizem por aquelas terras, a evolução, digo a entre-aspas, permite mudanças quaisquer ao longo do tempo, ainda que para pior. E de tempos cá, de repente em função de tal permissão, a nuvem nonde vivo passou a se precipitar mais, a ficar ainda mais pesada. Ela chove forte, raja ventos, estremece o chão por onde passa; e o faz não para auxiliar, mas decerto para que os seres humanos — aqueles que vivem de expectativas e de aprendizados que não se findam — se atolem ainda mais à frente das telas de computador, deixando de lado as mãos dadas e o olhar <em>tête-à-tête </em>para digitar, por ali mesmo, via teclado, &#8220;como ser feliz&#8221; no Google e clicar, logo em seguida, via mouse, o botão Estou com sorte! Talvez assim aprendam, de fato. E daqui, sem aguaceiros, rajadas de vento forte e bem longe das alterações climático-psicológicas que assolam a atmosfera, as porções de terra e os seres humanos, posso lhes dizer que vivo bem. Cético em relação ao mundo, confesso, mas bem. [...] A nuvem nonde vivo foi feita para mim e daqui, escrevendo, cabe justamente a mim agradecer por sua gasosa existência. Agradeço, afinal, porque daqui posso crer que amor à moda antiga vai bem, mesmo em nossos dias. Daqui sou livre para ser romântico sem elevar ao céu — se é que nele já não estou — o título de piegas. Da nuvem nonde vivo posso culpar a nova mulher — evoluída ou não — pela pobre e perecível configuração das atuais relações amorosas. Daqui, sem receio, posso acreditar que a esposa dos meus sonhos é linda e está viva a caminhar por aí. Os sonhos, inclusive, são liberados por aqui, nonde sonhar, comer, rezar e amar não são atos utópicos. Daqui podemos crer que algo incrivelmente inesperado ainda alterará o software, as configurações e os rumos do mundo. <em>Format, cê, dois pontos</em>. Porque aqui, já fechando a conta, somos quase etéreos sob a ótica dos mais terrenos; somos quase utópicos; <strong>nefilibatas</strong> mesmo. E aqui, sim, quase tudo podemos. Pois sobre a nuvem nonde vivo somos construídos dia após dia, sem culpa, a partir de nossos sonhos. E por aqui isso não é ruim.</p>
<p>Bom que seja assim.</p></div>
]]></content:encoded>
			<wfw:commentRss>http://www.universocriativo.com/blog/?feed=rss2&#038;p=2150</wfw:commentRss>
		<slash:comments>0</slash:comments>
		</item>
		<item>
		<title>Lídia</title>
		<link>http://www.universocriativo.com/blog/?p=2124</link>
		<comments>http://www.universocriativo.com/blog/?p=2124#comments</comments>
		<pubDate>Sat, 07 Apr 2012 18:05:02 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Willian Girarde</dc:creator>
				<category><![CDATA[Meus amores]]></category>
		<category><![CDATA[Minha Família]]></category>

		<guid isPermaLink="false">http://www.universocriativo.com/blog/?p=2124</guid>
		<description><![CDATA[&#160; &#160; Corcunda, ela subia a rua a pé numa roupa estampada, típica dos mais antigos, o cabelo branco como algodão doce, a bengala tocando o chão a cada segundo e a expressão de esforço no rosto, já levemente suado. A sombra das árvores bem que ajudavam a amenizar o ensolarado dia, mas a cena, [...]]]></description>
				<content:encoded><![CDATA[<p>&nbsp;</p>
<p><a href="http://www.universocriativo.com/blog/wp-content/uploads/Lídia.jpg"><img class="aligncenter size-full wp-image-2128" title="Lídia" src="http://www.universocriativo.com/blog/wp-content/uploads/Lídia.jpg" alt="" width="420" height="200" /></a></p>
<p>&nbsp;</p>
<div align="justify">
Corcunda, ela subia a rua a pé numa roupa estampada, típica dos mais antigos, o cabelo branco como algodão doce, a bengala tocando o chão a cada segundo e a expressão de esforço no rosto, já levemente suado. A sombra das árvores bem que ajudavam a amenizar o ensolarado dia, mas a cena, ainda assim, era incomum; afinal, não mais se espera de uma senhora à beira dos 90 que saia de casa, suba num ônibus e vá ao centro da cidade para resolver problemas cotidianos. Surpreendia sobretudo o ritmo <em>um-bengalinha-dois-um-bengalinha-dois</em> incessante, de modo que me esforcei um pouco para alcançá-la. Do outro lado da rua, eu já havia reconhecido aquele jeito ímpar de andar. Era <strong>Lídia</strong>, minha tia-avó.</p>
<p><em>Um-bengalinha-dois</em>. Então, de supetão, com um pequeno salto à frente e o coração na boca, foi-se o ritmo. Ela havia se assustado com minha abordagem — <em>Oi, Tia!</em> É que, embora ela tenha nascido no período pós-guerra, em 1922, à epoca da Semana de Arte Moderna, não me parece que a vida urbana da época era tão cruel como a de agora. Frágil, sem a força descomunal daquela jovem paranaense dos anos 20, hoje bem guardada somente na memória, é natural que se assuste. Olhou para mim, reconheceu-me, pousou as duas mãos brancas e enrugadas sobre meu rosto e beijou-me numa das bochechas. <em>Oh, meu filho!</em> Ali, enquanto de nós os perambulantes se desviavam, conversávamos. Nem havia tanto assunto assim, pois nossos encontros — graças a Deus — ainda são frequentes, mas quis saber o que fazia por ali. Não me lembro qual foi a resposta, tampouco me lembro dos assuntos que tratamos durante os dois ou três minutos que ali ficamos. Vê-la bem, saudável, falante: nada ali era mais interessante. [...] Então, outro beijo depois, foi-se em frente. <em>Um-bengalinha-dois</em>. Olhei-a de costas, corcunda, indo em frente com sua bengalinha. Senti-me orgulhoso.</p>
<p><strong>Tia Lídia</strong> é a velhinha que todo mundo quer ter como avó. Além do cabelinho branco e da bengalinha — o que, por si, costuma atrair os que respeitam e se aproximam dos bons velhinhos —, ela ainda gosta de bingo, baralho, pescaria e missa. É com frequência que vamos juntos a programas nos quais ela fica parada, geralmente sentadinha na cadeira mais confortável, a receber beijos e carinhos alheios. [...] No bingo, nem é tão sortuda assim. Com a mania de entortar a boca a cada número não marcado, ela ganha muito pouco, faz questão de comprar as cartelas com as quais joga e se mostra bastante supersticiosa — costuma rabiscar o <em>coringa</em>, aquele elemento central do jogo que já vem marcado na cartela de números. No baralho, escopa de 15. Aliás, para quem não sabe, a escopa de 15 é um jogo de cartas que veio para o Brasil com os imigrantes italianos, lá no início do século XX. Só velhinhos jogam hoje em dia, e Tia Lídia é um deles. Dizem que ela rouba e, quando não ganha, reclama que houve roubo por parte do adversário. Rumores. Na pescaria, até que se dá bem. Veste uma roupa própria para se defender dos mosquitos, um chapelão no melhor estilo mexicano e põe-se a pescar, espetando sôfregas minhocas no anzol a cada peixe perdido, quase sempre por conta de não chegar a tempo de fisgar o <em>danadinho</em>. Não há notícias de que num lapso qualquer tenha confundido a bengala com a vara de pescar.<em> Bom sinal</em>. Na missa não falta. Aliás, não só não falta às missas, mas reza durante todo o tempo em que está livre. Já às 5 da manhã, à beira do quarto onde costuma dormir, ouve-se um <em>bzzz! bzzz</em>! constante. É Lídia rezando, crente em Deus como só ela.</p>
<p>Ao fim do texto, é exatamente com Deus que quero falar. [...] Há pouco mais de um mês, saudável ao ponto de soprar com força a velinha 9 e a velinha 0, uma ao lado da outra, Tia Lídia completou 9 décadas. E eu realmente gostaria, <em>Cara —</em> com C maiúsculo —, que ela pudesse soprar três velinhas de uma só vez daqui 10 anos. Ela merece, nossa família merece e o mundo — já carente de pessoas como ela — também merece.</p>
<p><strong>Pode ser?</strong></div>
]]></content:encoded>
			<wfw:commentRss>http://www.universocriativo.com/blog/?feed=rss2&#038;p=2124</wfw:commentRss>
		<slash:comments>1</slash:comments>
		</item>
		<item>
		<title>Persona non grata</title>
		<link>http://www.universocriativo.com/blog/?p=2098</link>
		<comments>http://www.universocriativo.com/blog/?p=2098#comments</comments>
		<pubDate>Tue, 03 Apr 2012 15:40:20 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Willian Girarde</dc:creator>
				<category><![CDATA[O Indivíduo]]></category>
		<category><![CDATA[O Trabalho]]></category>
		<category><![CDATA[Pensamentos]]></category>

		<guid isPermaLink="false">http://www.universocriativo.com/blog/?p=2098</guid>
		<description><![CDATA[&#160; &#160; 3 horas da manhã, madrugada de segunda-feira. Sem ninguém por perto, sequer o pirríu do guardinha, o rapaz sobe num poste ainda sonolento e, dali, 4 metros de altura e correndo grande risco de se esturricar no chão, estica um fio que se conecta ilegalmente a um adaptador dependurado sobre o telhado de [...]]]></description>
				<content:encoded><![CDATA[<p>&nbsp;</p>
<p><a href="http://www.universocriativo.com/blog/wp-content/uploads/brasil.jpg"><img class="aligncenter size-full wp-image-2103" title="Brasil-sil!" src="http://www.universocriativo.com/blog/wp-content/uploads/brasil.jpg" alt="" width="420" height="200" /></a></p>
<p>&nbsp;</p>
<div align="justify">3 horas da manhã, madrugada de segunda-feira. Sem ninguém por perto, sequer o <em>pirríu</em> do guardinha, o rapaz sobe num poste ainda sonolento e, dali, 4 metros de altura e correndo grande risco de se esturricar no chão, estica um fio que se conecta ilegalmente a um adaptador dependurado sobre o telhado de sua casa. <em>Plim! Plim!</em> Agora a família tem TV a cabo à vontade para todos os aparelhos de TV da casa. E o melhor: com todos os canais, inclusive os adultos, sem custo algum. Com tudo em riba, tomou um banho e aproveitou para sair mais cedo, uma vez que o trânsito nas cidades se dá em função da quantidade de automóveis que saem juntos de casa, na mesmíssima hora, e não necessariamente em função da falta de infraestrutura viária. Às 5h00, ainda sob a luz da lua, mas já em direção à faculdade, o jovem universitário, futuro filósofo, depara-se com uma <em>blitz</em>. Passa um carro, passa outro, a visão é ofuscada por um feixe de luz que sai da lanterna de um policial, que o manda parar. <em>Putz!</em> O jovem não pagou o IPVA e, por conta disso, não conseguiu licenciar o carro. Mas a gente dá um jeito. Conversa vai, conversa vem e, dez minutinhos depois, o policial quer liberá-lo; afinal, não era exatamente um rapaz sem lenço e sem documentos o quê ele procurava por ali. <em>Você me ajuda que eu te ajudo!</em> Então, bastaram 50$ — uma onça — para que pudesse sair dali impune. <em>Vamos, enfim, aos estudos</em>. À frente, uma motocicleta ultrapassa o farol vermelho como se, somente por ser da polícia, pudesse fazê-lo. Sobre o banco do carro do jovem, já em movimento, o jornal do dia alertava a população: o prefeito nada faz pela educação na cidade. Mas faz. A verdade é que o jornal — pouca gente sabe — tem fortes ligações com o candidato da oposição e obriga-se, por receber mensalidades do partido, a banhar a mente da população com notícias fedorentas sobre o partido que detém o poder. Coisas que o dinheiro faz. Às 7h20, os amigos da sala já estão reunidos na padaria. <em>Um na chapa e um pingado!</em> Na TV sobre a geladeira de refrigerantes da Pepsi — e somente Pepsi —, o noticiário da manhã, para todo Brasil, mostra a figura de um político. <em>Desviou 5 milhões dos cofres públicos! Oh! Que vergonha!</em> Virou assunto. Então, num papo que se estendeu à sala de aula, os jovens filósofos passaram a clamar por justiça.</p>
<p>Sempre atribuo ao povo a culpa pela atual condição política brasileira. O povo tem o que merece, o povo tem o que põe na urna. Decerto pode haver manipulação nos resultados das eleições, mas, exceto por essa suposta condição, temos nas câmaras e nas cadeiras de prefeitos, governadores e no poder executivo federal um bando de gente posta lá pelo povo. É gente do povo, como se diz, que representa exatamente o que queremos na hora em que votamos. [...] Na prática, creio que<strong> a mudança está no povo</strong>, não nos políticos. Porque enquanto darmos o gato em tudo, no maior estilo jeitinho-brasileiro-de-ser, vamos seguir assim. Enquanto passarmos no farol vermelho enquanto ninguém vê, continuaremos assim. Enquanto subornarmos o guarda de trânsito, assim. Enquanto sonegarmos impostos, assim seremos. Enquanto agirmos injustamente em troca de favores e dinheiro, diria Chaves, <em>tampouco</em>. Enquanto, assim sendo, votarmos, assim seremos. [...] Porque — eu realmente acredito — aqueles que nos representam nada mais são do que um reflexo do que somos como povo brasileiro. E como povo brasileiro, convenhamos, somos espertinhos, desobedientes, malandros, malcriados e bastante preguiçosos.</p>
<p>Sanear a corrupção começa conosco. Sanear a corrupção começa no voto, começa na cabeça de um povo. [...] Patriotismo puro, aquele do verdadeiro amor pela bandeira: é nisso que acredito.</p>
<p><strong>Brasil-sil!</strong></div>
]]></content:encoded>
			<wfw:commentRss>http://www.universocriativo.com/blog/?feed=rss2&#038;p=2098</wfw:commentRss>
		<slash:comments>1</slash:comments>
		</item>
		<item>
		<title>Nem Chapolin</title>
		<link>http://www.universocriativo.com/blog/?p=2034</link>
		<comments>http://www.universocriativo.com/blog/?p=2034#comments</comments>
		<pubDate>Sun, 19 Feb 2012 20:53:53 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Willian Girarde</dc:creator>
				<category><![CDATA[O Indivíduo]]></category>
		<category><![CDATA[Pensamentos]]></category>

		<guid isPermaLink="false">http://www.universocriativo.com/blog/?p=2034</guid>
		<description><![CDATA[&#160; &#160; Um indivíduo pode ter grave doença ou ser atropelado por um carro em alta velocidade e, assim, será a vítima. Ok. Outro pode se colocar como vítima sem mesmo sofrer, de fato, algo que o pudesse classificá-lo como tal. Entre um e outro, gritante diferença. Aqui, excluamos da reflexão as vítimas de fato, tais [...]]]></description>
				<content:encoded><![CDATA[<div align="justify">
<p>&nbsp;</p>
<p><img class="aligncenter size-full wp-image-2058" title="Chapolin Colorado" src="http://www.universocriativo.com/blog/wp-content/uploads/chapolim.jpg" alt="" width="420" height="200" /></p>
<p>&nbsp;</p>
<p>Um indivíduo pode ter grave doença ou ser atropelado por um carro em alta velocidade e, assim, será <strong>a vítima</strong>. Ok. Outro pode se colocar como vítima sem mesmo sofrer, de fato, algo que o pudesse classificá-lo como tal. Entre um e outro, gritante diferença. Aqui, excluamos da reflexão as <em>vítimas de fato</em>, tais como as que sofreram algum mal súbito ou acidente automotivo. Consideremos somente aquelas que, por uma ou outra infundada razão, classificam-se como <em>vítimas de direito</em>, ou seja, pessoas que se [auto]posicionam — porque creem que têm direito — como vítimas da vida, das coisas, das condições, dos outros. Reflitamos somente sobre o fraco tipo de pessoa que atribui o próprio desempenho na busca pela plenitude à ação de outras coisas e pessoas sobre ela — não a uma ação dela própria sobre outras coisas e pessoas —, permitindo que o impacto do ambiente externo na vida seja mais forte do que o impacto de suas próprias decisões. [...] Em suma, vítimas de direito são pessoas caracterizadas por relações de dependência quase doentia e, sobretudo, por um <em>injusto sentimento de justiça</em> atrelada a uma <em>não-culpa.</em> É a <strong>sofrida gente que se faz de vítima.</strong></p>
<p><em>Abro citação</em>. As pessoas estão tão diferentes atualmente que, sentindo-me só, raramente me interesso por alguém. Sofro porque meus amigos não aprendem o que a vida tem a nos ensinar. Eu sou bastante humilde, faço as coisas da melhor forma, mas <em>certas pessoas</em> não fazem o mesmo e isso não está correto. Minhas sofridas condições psicológicas existem em função da má relação que meu chefe — geralmente muito agressivo — tem comigo. Não me dou bem com parte de minha família porque muitos ali não me entendem. Resolvi me isolar porque não creio que exista amizade verdadeira ou mesmo o amor verdadeiro no mundo. Tenho vontade de chorar quando percebo que as coisas, antes muito bacanas, mudaram tanto — e para pior. Prefiro sofrer calado a falar o que realmente desejo falar. Aliás, pensando bem, pouca gente ouve o que eu tenho para falar. Trabalho muito, esforço-me além da conta e sou pouco reconhecido. Nem meus finais de semana são bons o suficiente. Ninguém me ama, ninguém me quer. <em>Não fecho citação</em>. [...] E o jogo da vitimização segue infinitamente às frases mais surpreendentes, assim como surpreendente é o fato de não haver [auto]culpa nisso tudo sob a ótica da tal vítima.</p>
<p>Há, inclusive, o que parece ser um processo lógico traçado por vítimas de direito para resolver o problema da culpa. Num primeiro momento, entoada sob diversas formas — ou até postada na internet —, c<em>oitadinho de mim!</em> é a frase  mais comumente utilizada nas situações em que o apoio é necessário. Então, os entes mais próximos [por vezes outras vítimas de direito] sentem <strong>dó</strong> e passam a apoiar mais por uma espécie alternativa de responsabilidade social do que por vontade verdadeira. A vida passa a duras penas, a vítima de direito é vista como vítima de fato e então, quando percebe o apoio de outras pessoas, deixa que o sentimento de culpa vá embora por pura conveniência. Ali, é como se todo o contexto desfavorável se transformasse numa decorrência natural do comportamento ou ato de outro, não do próprio ato ou comportamento. <em>Ufa, a culpa não é minha! Sou vítima!</em></p>
<p>Sob meu ponto de vista, a culpa pelo fracasso ou sucesso é sempre de quem o vive, não de outro. A vítima de direito fez algo ou colocou-se propositalmente ali, fraca, a reclamar da situação construída por si mesma porque quis, porque não foi capaz ou por outra porcaria qualquer que tenha feito. É como se não conseguisse se [auto]explicar ou realizar o suficiente e, sob pressão, pusesse noutro ser humano ou coisa a culpa pelos próprios infortúnios e fracassos. <em>Oh! E agora quem poderá me defender?</em> Pois quem poderá defendê-la de tamanha injustiça e tamanho sofrimento é <strong>VOCÊ</strong>, <em>dona</em> vítima, e mais ninguém! Ou, de repente, somente para que a história se eleve ao tom do humor, chamemos o <strong>Chapolin Colorado</strong>, que tal? Aí sim, quem poderá lhe defender?</p>
<p><strong>Eu!</strong></p>
</div>
]]></content:encoded>
			<wfw:commentRss>http://www.universocriativo.com/blog/?feed=rss2&#038;p=2034</wfw:commentRss>
		<slash:comments>0</slash:comments>
		</item>
		<item>
		<title>Sobre a hipocrisia</title>
		<link>http://www.universocriativo.com/blog/?p=1904</link>
		<comments>http://www.universocriativo.com/blog/?p=1904#comments</comments>
		<pubDate>Thu, 02 Feb 2012 04:40:38 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Willian Girarde</dc:creator>
				<category><![CDATA[Pensamentos]]></category>

		<guid isPermaLink="false">http://www.universocriativo.com/blog/?p=1904</guid>
		<description><![CDATA[&#160; &#160; Fingir que é, mas não ser. Ser essencialmente feio — no amplo sentido do termo —, mas colocar-se à frente como se as próprias ações e os aspectos físicos fossem belos o suficiente, tão belos!, ao ponto da própria imagem beirar a perfeição. Uma espécie não-rara de idealismo que permeia as relações de [...]]]></description>
				<content:encoded><![CDATA[<div align="justify">
<p>&nbsp;</p>
<p><a href="http://www.universocriativo.com/blog/wp-content/uploads/hipocrisia.jpg"><img class="aligncenter size-full wp-image-1999" title="Hipocrisia" src="http://www.universocriativo.com/blog/wp-content/uploads/hipocrisia.jpg" alt="" width="420" height="200" /></a></p>
<p>&nbsp;</p>
<p>Fingir que é, mas não ser. Ser essencialmente feio — no amplo sentido do termo —, mas colocar-se à frente como se as próprias ações e os aspectos físicos fossem belos o suficiente,<em> tão belos!</em>, ao ponto da própria imagem beirar a perfeição. Uma espécie não-rara de idealismo que permeia as relações de hoje; uma reviravolta na forma, o que não é em é — a <strong><em>hipocrisia</em></strong>.</p>
<p><strong>Hipócrita</strong> é o tipo que, mesmo após um banho quente de 45 minutos, defende o uso de sacolinhas plásticas biodegradáveis porque o meio ambiente está em colapso. O tipo que cultua culturas alternativas porque se diz multicultural, <em>cult</em> e [?] não gosta de ler. É o tipo que se mostra responsável socialmente, mas que, voluntariamente, nada faz ou já fez em favor de outro. É o tipo que brada contra a corrupção, mas está disposto a negociar com um policial rodoviário no caso em que não estiver com a documentação do carro em dia. Critica Justin Bieber, mas canta <em>Baby </em>numa boa. O tipo que não vive dias ruins, que nunca frequenta lugares ruins e está sempre sorrindo, em bons lençois. É a garota que, essencialmente <em>piriguete</em>, critica as <em>piri-piri-piriguetes </em>assumidas. Ou mesmo o garoto que, fundamentalmente <em>macho</em>, nega o seu lado sensível. É o tipo que se diz patriota, regionalista, e vive a elogiar os <em>states</em> ao mesmo tempo em que critica aos punhados a terra-mãe. O quase-homem que, por um ou outro interesse, diz o que não diria ou é o que essencialmente não seria. O tipo que defende o <em>seja-você-mesmo</em> e, bem lá no fundo, nunca foi si próprio. Preconiza o trabalho, trabalha pouco; diz-se rico, ganha pouco; compartilha o amor, não ama; diz curtir o amigo, não gosta. Sorri amarelamente e apoia, muito a contragosto, uma ideia que não apoiaria. Acena e aperta a mão em função do protocolo, pois a cabeça noutro lugar, noutro assunto, não se atenta à pessoa. É o tipo que tenta viver de acordo com os princípios da moralidade social ainda que, na essência, seja um indivíduo imoral, libertino e desonesto. É não possuir, mas fingir que possui; não crer, mas fingir que crê; não sentir, mas fingir que sente; atuar,<em> &#8216;malemá</em>, no pior sentido do verbo. <strong>Hipócrita</strong> é o tipo que, como já diziam, &#8220;oculta a realidade atrás de uma máscara de aparência&#8221;; uma espécie não-rara de gente que faz do mundo, pobre mundo, um lugar um pouquinho mais mentiroso, oco, complicado de se viver.</p>
<p>Certa vez, lá pelas tantas de 1500, Montaigne usou uma figura ligada à justiça para ilustrar a hipocrisia. Escreveu que até um juiz seria capaz de rasgar um pedaço de papel para enviar um bilhete amoroso à mulher de um colega, <em>danadinho</em>, da mesma folha onde acabara de escrever a sentença de condenação de um adultério. E é isso que, no presente, vemos por aí: no que se expõe, um mundo de beleza, amor, fraternidade e solidariedade; na vida real, por outro lado, um bando de piriguetes, homens sensíveis, pessoas carentes, malandras, corruptas, pseudo-<em>cults</em>, malemolentes, boêmias, <em>contas-no-vermelho</em>, sorrisos-colgate e egoístas a vagar pelas ruas, pela internet, jogando latinhas de cerveja e bitucas de cigarro pela janelinha, postando fotos e textos como se seus perfis fossem ideais e o dia-a-dia estivesse às mil maravilhas. <em>Ahvá</em>.</p>
<p>Montaigne dizia ainda que comumente nos são sugeridos modelos de vida que sequer quem os propõe — tampouco seus auditores — têm esperança de seguir ou, pior, o desejo de os realizar. Por fim, citando-o quase que literalmente, &#8220;<em>deixemos, sendo assim, que as leis e os preceitos sigam o seu caminho: nós tomamos outro, não só por desregramento de costumes, mas também frequentemente por termos opiniões e juízos que lhes são contrários</em>&#8220;. Os ditames sociais supérfluos de um lado, nós do outro.</p>
<p><strong>Tiremos as máscaras.</strong></div>
]]></content:encoded>
			<wfw:commentRss>http://www.universocriativo.com/blog/?feed=rss2&#038;p=1904</wfw:commentRss>
		<slash:comments>0</slash:comments>
		</item>
		<item>
		<title>De Gasparian a Mello — Parte I</title>
		<link>http://www.universocriativo.com/blog/?p=1963</link>
		<comments>http://www.universocriativo.com/blog/?p=1963#comments</comments>
		<pubDate>Wed, 25 Jan 2012 05:27:40 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Willian Girarde</dc:creator>
				<category><![CDATA[Meus amores]]></category>
		<category><![CDATA[O Trabalho]]></category>

		<guid isPermaLink="false">http://www.universocriativo.com/blog/?p=1963</guid>
		<description><![CDATA[&#160; &#160; Os botões dos andares eram velhos, eu sempre achei que aquele elevador cairia. Por um período, levou-me diariamente ao último andar de um prédio branco, meio fino quando visto da portaria. Verdade que quando o visitei pela primeira vez não me atentei aos detalhes. Eu estava nervoso, queimando sob o sol num terno [...]]]></description>
				<content:encoded><![CDATA[<div align="justify">
<p>&nbsp;</p>
<p><a href="http://www.universocriativo.com/blog/wp-content/uploads/gasparian.jpg"><img class="aligncenter size-full wp-image-1969" title="Ronaldo Gasprian" src="http://www.universocriativo.com/blog/wp-content/uploads/gasparian.jpg" alt="" width="420" height="200" /></a></p>
<p>&nbsp;</p>
<p>Os botões dos andares eram velhos, eu sempre achei que aquele elevador cairia. Por um período, levou-me diariamente ao último andar de um prédio branco, meio fino quando visto da portaria. Verdade que quando o visitei pela primeira vez não me atentei aos detalhes. Eu estava nervoso, queimando sob o sol num terno preto, brega, do tipo mequetrefe-barato que nem defunto usaria; talvez o único que meu armário guardava na época. Na primeira vez, sem olhar para seu botões velhos, para a estrutura ou sequer pensar sobre a possibilidade de me espatifar com sua queda, saí do elevador e procurei pelo número do apartamento. Rara vez, eu não estava atrasado. Deparei-me, no canto à direita, com uma porta entreaberta e protegida por um tapetinho feio. Era ali. Tinha chegado a hora. Entrei, vi uma escada daquelas que sobem girando, uma cozinha à direita e um pequeno espaço, este em frente a uma porta que, fechada, escondia um quarto. Era o quarto dele. Do andar de cima do apartamento <em>duplex </em> ouvi um <em>Pode subir!</em> em voz alta. A voz era de <strong>Ronaldo Gasparian</strong> — aclamado <em>deejay</em>, ídolo de minha adolescência e de quem eu havia conseguido um autógrafo meses antes. Era a entrevista da minha vida. Subi as escadas e não me senti bem, certamente porque o terno preto e brega aliado ao meu nervosismo não diziam em meu favor. Conversamos durante horas e, também porque <em>a priori</em> eu nada receberia, acabei admitido mesmo usando aquele terno: no fim das contas, pensando bem, ficava barato. <em>Você vai trabalhar aqui</em> — ele apontava para uma cadeira surrada e um computador montado sobre uma mesa que dava para uma parede branca, opaca, com teclado verde  — <em>e hoje eu não tenho como te pagar.</em> <em>Garanto-lhe, se aceitar, que você vai aprender como nunca. </em>[...] E ali, com ele, eu realmente aprendi como nunca. Novos sonhos, novas direções, novos caminhos. Uma nova forma de enxergar o mundo, uma nova vida.</p>
<p>Eu tinha um carro importado e automático da Nissan. Era do meu pai, bem verdade, mas fui me apropriando dele até que, num belo dia, tornou-se meu. Na época eu ainda cursava a faculdade de comunicação, que ficava em São Bernardo do Campo. Eu ia e voltava, ia e voltava, gastava combustível suficiente para abastecer uma cidade de 15 mil habitantes e não ganhava um puto. Destruí o carro. Mentia em casa dizendo que ganhava uns trocados, mas no começo nada. Havia dias em que Ronaldo e eu madrugávamos a trabalhar em novos projetos para a RadioDJ ou em festas nas quais ele era a atração principal. Não aceitava que me pagasse as refeições todas as vezes [ficava sem comer] e, também por vergonha, deixei de usar ternos, inclusive os bregas. Usava roupas normais. Aprendi a usar telefone comercialmente quando era obrigado a dialogar com as mães de garotos que se interessavam pelos cursos de música que organizávamos. Passei a escrever melhor quando meus erros de português eram revisados por Ronaldo, que respondia e reencaminhava os e-mails já com a correção. Ali aprendi que dinheiro, ainda que usado para a manutenção preventiva de um Volvo caríssimo, não se colhe em árvore. Vi pela primeira vez um computador sendo montado do cabo ao rabo do mouse. Percebi que longas conversas filosóficas sobre a vida são possíveis a todo o tempo e que tais, quando construtivas, nos levam a novos ares, sempre. Aprendi que precisamos doar as coisas que temos às pessoas que as valorizam mais.  No banco do passageiro, rodei por milhares de quilômetros no trânsito de São Paulo e aprendi a andar por caminhos alternativos. Joguei fliperama em horários de trabalho, trabalhei muito enquanto os outros se divertiam. Chorei sem medo. Fui flagrado dormindo em frente ao computador por um dos equipamentos ultratecnológicos que Ronaldo costumava comprar a preço de ouro na Santa Ifigênia — no caso, uma até então raríssima webcam conectada à internet. Aprendi, por curiosidade, a usar softwares de edição de imagem e HTML. Passei a usar o brilho e o contraste de modo exagerado nas fotos digitais. Conheci gente chique, sobretudo as donas enrugadas das lojas do Shopping Iguatemi e da Gabriel Monteiro da Silva. Conheci gente legal. Vi Ronaldo bravo — e vermelho! — quando eu cometia erros patéticos. Tomava bronca, recebia elogios. Sofria, mas aprendi como nunca. Eu realmente aprendi como nunca. [...] Anos depois, já num novo escritório, bem perto do apartamento onde o elevador dos botões velhos sobrevivia a duras penas, assisti à ascensão de Ronaldo, que crescia como profissional da música e empresário. Acompanhei boa parte dessa fase em que ele, mesmo vindo de família abastada, passava por perrengues de gente comum e realizava, ainda assim, os antes-inconcebíveis sonhos com as próprias mãos e talento. E eu aprendi assim, na surra. <em>Aprendi que aprender é na base da surra.</em></p>
<p>No novo escritório, um espaço amplo com ar condicionado, frigobar, computadores de última geração e móveis bonitos de se ver. No novo prédio, um elevador decente, novo, de aço escovado, que até emitia o som da voz aeroportuária de uma mulher: <em>Décimo quarto andar! Desce!</em>. Era diferente: botões bonitos, manutenção em dia e a possibilidade quase nula de queda. E ali eu subia, descia, subia, descia, subia, descia, todos os dias, até que um dia eu não subi mais. Enfim, tinha chegado a hora de eu colocar em prática, do meu jeito, o que o <strong>mestre </strong>havia me ensinado. Era a minha vez.</p>
<p><strong>Eu precisava entrevistar alguém.</strong></div>
]]></content:encoded>
			<wfw:commentRss>http://www.universocriativo.com/blog/?feed=rss2&#038;p=1963</wfw:commentRss>
		<slash:comments>1</slash:comments>
		</item>
	</channel>
</rss>
