♫ Alegria

 

Cultivo uma íntima relação com a música desde muito cedo. Das fotos com uma pequena sanfona e um grande fone de ouvido aos 3 anos de idade às centenas de registros da longa carreira como DJ, desde as fitas cassete e discos de vinil até a era do Spotify, boa parte da minha vida foi dedicada à música. E essa relação é tão intensa, tão profunda, que muitas vezes é através dela que Deus conversa comigo.

Eu ainda não sabia se seria menino ou menina quando, estranhado, acordei com a abrasileirada música da animação Toy Story na cabeça. Amigo, estou aqui! ecoou na mente muitas vezes até que, enfim, eu pudesse entender a mensagem: era Deus me avisando que Emanuel estava por vir. Ali, enquanto todos repetiam Será menina!, eu já não tinha dúvidas: seria menino. Certeza. Foi uma lindíssima manhã.

E nessa de Deus se aproveitar da íntima relação que tenho com a música para me enviar recados, hoje recebi outro. Fui acordado pelo choro de Emanuel e pela mente inquieta, que de novo insistia em ressoar, inexplicavelmente em silêncio, uma música lá do canto do cérebro: Ode To Joy, último movimento da Nona Sinfonia de Beethoven. Pois bastou clicar play para vivermos juntos, Emanuel e eu, a madrugada mais alegre desde seu nascimento, há 4 meses e 9 dias. Ali e aqui, o título fez sentido e foi como se Emanuel já falasse. Enfim, uma lindíssima madrugada.

Toda uma vida musical: o fom-fom da sanfoninha, os scratches do vinil e os cliques para reproduzir músicas em alto volume nas casas noturnas, às centenas de pessoas, ou mesmo via bluetooth, bem baixinho, para que Emanuel, somente ele, fosse inundado com ondas de tranquilidade. Uma forte relação que se reformatou inúmeras vezes, altera-se a cada dia e tem Deus como plano de fundo. Imagens e sons me vêm à mente em flashes, exatamente como este parágrafo.

Outro recado?

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Para o mundo


 

O Carbonell é, hoje, um dos melhores colégios da minha cidade, Guarulhos. É para onde vou toda manhã às 9, às vezes às 10 da manhã ou até um pouquinho mais tarde. É o lugar onde, como gestor de marketing, atualmente eu trabalho. “A Gente Te Prepara Para O Mundo” é o slogan que adotei para o Colégio Carbonell um ano depois que assumi meu departamento, na campanha publicitária de 2017. Porque preparar para o mundo, hoje em dia, é muito mais do que preparar para o vestibular; envolve o lado humano que vai além dos conteúdos e da briga por vagas nas universidades; envolve a relação com a família, com a formação cidadã do indivíduo e tudo aquilo que nos faz ser capaz, na vida adulta, de curtir e enfrentar a realidade de modo a se doar e aproveitar tudo que o mundo tem de melhor a oferecer. Daí o “A Gente Te Prepara Para O Mundo”, slogan que criei para o Carbonell, provável destino de Emanuel, meu querido filho, quando adentrar o período escolar.

Deus conosco. O significado de seu nome inundou a sala de parto muitas horas depois do início do estímulo. Se considerarmos a visita à obstetra pela manhã para a última verificação — afinal, nasceria mesmo no dia 12 de junho? —, o trabalho de parto começou bem antes, por volta das 11 da manhã. Significa dizer que Emanuel foi estimulado no ventre de Amanda, minha amada esposa, ao longo de longas 9 horas até que pudesse, num parto normal, nascer às 20h42 do mais inesquecível dia 12, dos Namorados, de todos. Todo o trabalho aconteceu numa ampla sala apropriada para partos normais, capaz de receber uma grande equipe médica e o pai: no caso do nascimento de Emanuel, além da obstetra e sua assistente, duas enfermeiras, uma pediatra, três anestesistas especializadas e, como mero espectador, eu. Senti medo, insegurança, quis falar, ajudar, interferir, mas Deus, talvez por ter recebido um pedido do menino prestes a nascer, sabiamente me orientou para que ficasse quietinho, de canto, emocionado, assistindo à equipe trabalhando harmoniosamente como uma sinfonia para que Emanuel viesse ao mundo.

Desde pequeno, sonho em ser pai. Quando recebi, há pouco, a visita da pediatra e o relatório de alta de Amanda e Emanuel, pensei “Willian, você, enfim, tornou-se pai e chegou a hora de levar o seu filho ao mundo, para que viva e conheça o que há por aí”. Mas serei eu, um mero espectador, preparado para isso? Serei capaz de orientar meu filho de modo que ele viva bem neste mundo lindamente louco em que vivemos? Sentado no sofá do quarto da maternidade e ouvindo o chuveiro que banha Amanda, escrevo, digito, percebo: chegou a hora! A hora de preparar para o mundo, o que envolve, já diria no Colégio Carbonell, a relação com a família, com a formação cidadã do meu filho e tudo aquilo que fará a gente ser capaz de curtir e enfrentar a realidade de modo a se doar e aproveitar tudo que a vida tem de melhor a nos oferecer. Seria eu, Pai, preparado para isso?

Sim, Emanuel. Aqui, juntos, a gente te prepara para o mundo.

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Ruído


 

Nem todos entendem o motivo, mas, para trabalhar, os DJs precisam de bons fones de ouvido. Acontece que, por conta de um bocado de fatores, as músicas precisam ser ouvidas antes da reprodução, antes de todos ouvirem. E, enquanto outros dançam, os DJs estão assim: vestidos com headphones, sempre ouvindo e preparando a próxima música.

Nem todos entendem o motivo, mas há quem seja simplesmente bom. Há quem pense pouco ou nada em si justamente para se doar, para se entregar de corpo e alma aos outros sem qualquer razão aparente. E há, tão nobre, tamanha a evolução espiritual, quem prefira ser bom e fazer o bem o tempo inteiro. Como se a benevolência fosse — e é — um dom.

Eu ainda não entendo o motivo — afinal de contas, não o tirava dali por nada —, mas quando abri a mochila de equipamentos numa de minhas centenas de noites como DJ, meu fone não estava lá. Esqueci, tirei. E, para um DJ, nada é como não ouvir as próximas músicas. Nada. Nada a fazer. Ou quase nada, pois é muito comum que o cérebro associe situações como essa aos benevolentes. E aí, quando o pior está por vir, eles surgem exercendo, literalmente, o que têm de melhor: a bondade.

Eu entendo o motivo que fez meu pai sair daquele churrasco. Sempre rodeado de amigos, ele nutre paixões pelo barulho da grelha e copos a tilintar. E não foi necessário muito para que ouvisse também o toque do telefone e um chamado de ajuda: houve um problema, pai, o fone não estava lá e eu gostaria de saber se o Sr. estava por ali, na região nobre do Pacaembu. Não estava. O queima-carne acontecia em Guarulhos. E Guarulhos não curte viver encostado. É longe.

De tão bondoso, ele resgatou o fone de ouvido em minha casa e, minutos depois de se despedir dos amigos antes do previsto, atravessou a Marginal Tietê para me encontrar no Pacaembu e entregá-lo; não o que eu costumava usar, mas outro, pego por engano. E mesmo sabendo que o fone de ouvido reserva serviria, ele não se deu por satisfeito: retornou a Guarulhos, resgatou o outro fone de ouvido e, duas horas depois de se despedir dos amigos antes do previsto, atravessou novamente a Marginal Tietê para me encontrar outra vez no Pacaembu e entregar o fone de ouvido correto, sem me avisar. E tudo porque — eu entendo bem o motivo — meu pai quer fazer o bem a todo custo, a todos, sem esperar nada em troca. É um ser humano exemplar, benevolente, com o coração bom como poucos são.

Hoje não precisei do fone de ouvido para ouvir meu pai dizendo, com um olho entreaberto, que sua velhice está chegando. Disse que passará por uma cirurgia ocular na sexta-feira e, embora com muita fé acreditemos que o procedimento ocorrerá bem, a mim soou como um ruído. Um daqueles sopros que, tão silenciosos, soam como um estampido ou um forte zunido no pé do ouvido. Não foi fácil, assim como não me parece fácil entender por que seres humanos tão bons, com tão raro dom, sofrem tanto — ou até mais — com a velhice e com os mesmos males que nós, reles mortais.

Eis o tal mistério?

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A caatinga de Gucoff

Praça da Língua

 

O garoto petrificado em frente ao pôster hesitou quando me viu. Foi um daqueles momentos em que o cérebro — talvez por silenciosamente entender que há algo muito especial prestes a acontecer — parece deletar propositalmente as desimportâncias só para que a verdadeira lição a ser absorvida permaneça em seus miolos, estes que acabam por armazenar exclusivamente a história por meio da qual geralmente narramos as lembranças e a própria vida. Confesso, aproximei-me porque senti pena. Ele era novo, franzino, cabelos curtos, aparentava 15 e ali seguiu como pedra quando resolvi, por sorte ou obra divina, indagá-lo sobre seu trabalho de iniciação científica. Dali em diante, quatro descobertas: primeiro, descobri que não só a postura do jovem, mas também o tema da investigação repelia os espectadores: ele defendia com amarelados unhas e dentes a pedregosa e retorcida caatinga — vegetação secularmente classificada como árida e paupérrima — com um discurso rico e frondoso. Também descobriria minutos depois que aquela era a primeira apresentação do jovem garoto naquela tenda calorenta repleta de pesquisadores, cientistas e ventiladores mequetrefes que pouco nos refrigeravam. Estávamos em São Luís, Maranhão e lá no fundo — concordo, é pura crença — aquela apresentação mudou tanto a minha vida, tanto!, que eu não tenho dúvida de que aquele garoto franzino de 15 anos estudou a tal vegetação ao longo de todo um ano só para timidamente, feito pedra, levar-me à terceira descoberta: meu sonho.

Eu nunca soube o nome dele e não me lembro exatamente de onde vinha, embora haja indícios de que vivesse à beira da caatinga. Uma pena. Fato é que um garoto sem-nome, franzino, 15, tímido, amante de pesquisa e realmente transformador me fez refletir naquela mesma noite, quando sentei em frente ao computador e a uma das mesas do hotel à beira-mar, arquitetonicamente desenhado como se fosse um veleiro. Oras, pensava, por que não estimular outros jovens como aquele na árdua tarefa de descobrir e defender seus anseios com unhas, dentes e o que mais lhe dessem nas telhas? Por que não acreditar que mais experiências como aquela pudessem acontecer? Todos de 15, 18, de cabelos curtos, longos, de sorrisos metálicos, amarelos, leitores, YouTubers, de riso fácil, tímido, de texto fluido, emperrado, de tema descoberto, a ser descoberto, de direita, esquerda, de tinta no cabelo, careca, habitante da caatinga ou Mata Atlântica: por que não todos esses jovens?

Muito tempo se passou até que Gucoff pudesse sentar à minha frente. Nova, franzina, cabelos curtos, aparentava 15 e ali, na mesa, tímida, também seguiu como pedra até iniciarmos um debate caloroso sobre o tema de sua primeira investigação científica. O tema, em si, a priori não me importava. E não importava, pois, depois do garoto sem-nome, o meu objetivo em ocasiões como essa sempre foi o mesmo: descobrir a caatinga em cada um. Afinal, qual assunto poderia transformar Gucoff a tal ponto que, frondosa como a tal vegetação, ela também pudesse servir de estímulo aos outros como o jovem garoto serviu a mim? E, juntos, horas a fio, Gucoff e eu descobrimos.

Recebi há pouco uma declaração amorosa de Gucoff sob a forma de um texto bem escrito. Nas entrelinhas, sua mensagem trazia uma carga explosiva de estímulos concentrados que me impulsionam a seguir acreditando na lição aprendida já na primeira descoberta: nem sempre uma vegetação rústica, espinhosa, seca e retorcida é pobre como aparenta; muito pelo contrário, dela muitos bons frutos podem surgir.

#AvanteSyans

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561

 

O cheiro da comida a incomodava. Então, levei a bandeja a outro cômodo, onde havia uma cadeira de ferro à prova d’água protegida à direita por um plástico daqueles barulhentos, dependurado do alto ao chão; também havia um espelho, uma pia e uma janela redonda, com vidro translúcido, de onde era possível avistar toda a cidade. Decerto era a primeira vez que aquela cadeira estava sendo usada para abrigar um esfomeado e seu almoço. Era a primeira vez também que me sentava numa dessas, comumente utilizadas por pacientes debilitados para tomar banhos. Ali, isolado, eu estava prestes a viver uma experiência diferente: almoçaria no banheiro de um hospital — o banheiro do quarto 561.

Dez dias antes, em Buenos Aires, ela já se queixava de indisposição no sistema digestivo. Mas o cheiro da comida passou a incomodar mesmo durante o jantar num boníssimo restaurante que ficava ao lado do hotel em Foz do Iguaçu, segundo destino de nossa lua de mel. O prato ainda estava intacto quando ela o empurrou em sinal de repulsa e pediu para que fôssemos embora dali. Faltavam um dia e algumas horas para seu aniversário. Mal sabíamos, faltavam um dia e algumas horas também para sua internação. Na tríplice fronteira, não conhecemos as cataratas. Não deu tempo. A internação durou dois longos dias.

No trajeto de volta, dormia tanto que não se incomodou muito com o voo entre Foz do Iguaçu e São Paulo. O efeito de remédios foi capaz de impedir os vômitos durante algumas horas, o que poupou passageiros e a tripulação. É que, de tanto jejum, ela já expurgava a bile de modo sofrido, com olhos ainda mais claros e sempre à beira do choro. Aliás, ela sequer teve tempo de olhar o estado de seu cão ou abraçar o próprio pai dias depois de seu casamento, no retorno. Do aeroporto ao hospital, uma hora. No total, 4 horas de viagem. Então, já perto de casa, trancafiou-se novamente.

O cheiro da comida no quarto 561 a incomodava ainda mais. Ao longo do tempo em que esperava o demorado diagnóstico, em vez de comer, divertiu-se com a modernidade do leito automático, conheceu dezenas de enfermeiros, vomitou algumas outras vezes e, porque dormia profundamente, não assistiu às explosões dos fogos de artifício no réveillon. Ao longo do tempo em que esperava o diagnóstico, recebeu emocionantes visitas de seus familiares e amigos. Perdeu três quilos e se sentiu feia, mas rejuvenesceu suas relações e a esperança de uma vida ainda melhor a partir de agora, num novo ciclo.

Quando ela partiu para o centro cirúrgico, eles pediram para que eu ficasse por perto, numa sala de espera. Foram duas horas até que ela se livrasse da vesícula e, enfim, recuperasse a saúde. Naquela hora, consciente, desobedeci. Beijei Amanda, desejei sorte e, contra a ordem médica, voltei ao quarto 561, de onde agora, sozinho, escrevo. Vejo o moderno leito, os tubos todos e o banheiro, aquele mesmo em que degustei a comida que ela não comia, que ela não cheirava.

Aqui, no quarto 561, vi Amanda forte como nunca tinha visto; fiz jus à promessa de que a amaria na saúde e na doença. Passei a amar ainda mais essa pequena, hoje com esbeltos 42 quilos, com quem pretendo viver e sentir cheiros para o resto da vida.

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