561

 

O cheiro da comida a incomodava. Então, levei a bandeja a outro cômodo, onde havia uma cadeira de ferro à prova d’água protegida à direita por um plástico daqueles barulhentos, dependurado do alto ao chão; também havia um espelho, uma pia e uma janela redonda, com vidro translúcido, de onde era possível avistar toda a cidade. Decerto era a primeira vez que aquela cadeira estava sendo usada para abrigar um esfomeado e seu almoço. Era a primeira vez também que me sentava numa dessas, comumente utilizadas por pacientes debilitados para tomar banhos. Ali, isolado, eu estava prestes a viver uma experiência diferente: almoçaria no banheiro de um hospital — o banheiro do quarto 561.

Dez dias antes, em Buenos Aires, ela já se queixava de indisposição no sistema digestivo. Mas o cheiro da comida passou a incomodar mesmo durante o jantar num boníssimo restaurante que ficava ao lado do hotel em Foz do Iguaçu, segundo destino de nossa lua de mel. O prato ainda estava intacto quando ela o empurrou em sinal de repulsa e pediu para que fôssemos embora dali. Faltavam um dia e algumas horas para seu aniversário. Mal sabíamos, faltavam um dia e algumas horas também para sua internação. Na tríplice fronteira, não conhecemos as cataratas. Não deu tempo. A internação durou dois longos dias.

No trajeto de volta, dormia tanto que não se incomodou muito com o voo entre Foz do Iguaçu e São Paulo. O efeito de remédios foi capaz de impedir os vômitos durante algumas horas, o que poupou passageiros e a tripulação. É que, de tanto jejum, ela já expurgava a bile de modo sofrido, com olhos ainda mais claros e sempre à beira do choro. Aliás, ela sequer teve tempo de olhar o estado de seu cão ou abraçar o próprio pai dias depois de seu casamento, no retorno. Do aeroporto ao hospital, uma hora. No total, 4 horas de viagem. Então, já perto de casa, trancafiou-se novamente.

O cheiro da comida no quarto 561 a incomodava ainda mais. Ao longo do tempo em que esperava o demorado diagnóstico, em vez de comer, divertiu-se com a modernidade do leito automático, conheceu dezenas de enfermeiros, vomitou algumas outras vezes e, porque dormia profundamente, não assistiu às explosões dos fogos de artifício no réveillon. Ao longo do tempo em que esperava o diagnóstico, recebeu emocionantes visitas de seus familiares e amigos. Perdeu três quilos e se sentiu feia, mas rejuvenesceu suas relações e a esperança de uma vida ainda melhor a partir de agora, num novo ciclo.

Quando ela partiu para o centro cirúrgico, eles pediram para que eu ficasse por perto, numa sala de espera. Foram duas horas até que ela se livrasse da vesícula e, enfim, recuperasse a saúde. Naquela hora, consciente, desobedeci. Beijei Amanda, desejei sorte e, contra a ordem médica, voltei ao quarto 561, de onde agora, sozinho, escrevo. Vejo o moderno leito, os tubos todos e o banheiro, aquele mesmo em que degustei a comida que ela não comia, que ela não cheirava.

Aqui, no quarto 561, vi Amanda forte como nunca tinha visto; fiz jus à promessa de que a amaria na saúde e na doença. Passei a amar ainda mais essa pequena, hoje com esbeltos 42 quilos, com quem pretendo viver e sentir cheiros para o resto da vida.

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Vela

 

vela

 

O final da mureta da ponte não chega à parede. Aquele povo passa pelo vão e ajeita o traseiro por ali, na terra mesmo. Às margens do córrego que separa as duas maiores cidades paulistas, madruga à beira de uma fogueira um punhado de gente que usa todo tipo de droga segundo o próprio arbítrio. O ambiente escuro, exceto pela chama, é tomado pelo cheiro de fumaça canabina e pele humana que não se banha há dias. É gente que perambula em frente aos carros e cutuca vidros que refletem a luz vermelha do semáforo, geralmente em busca de alguns centavos a mais e mais, até que se some o valor de mais uma pedrinha ou uma papeleta recheada. Então, munida, essa gente passa pelo vão, senta o traseiro à beira da fogueira, na terra mesmo, e usa. Usa de novo e de novo, comumente ao longo de toda a madrugada. Usuários, marginais. Às 3h00 da manhã, passa o trabalhador em seu possante, atravessa a tal ponte sobre o córrego e não percebe o grupo. Imerso em ar condicionado configurado para exatos 22 Celsius, ele não sente sequer um fio do cheiro exalado pelo fétido-pútrido córrego que, misturado ao cecê da galera, remete a um intenso chorume. O semáforo verde, por pura sorte, o exime das abordagens e ele se livra de esmolar em prol do tráfico. No banco de trás, um pedaço de bolo e três bexigas insistem em lhe tapar a retrovisão. A mão espalmada, já gélida, e o braço posto para fora da janela tinham lá sua justificativa: depois de um dia de trabalho, nada como um truque secular para derrotar o sono e, por fim, suprir o desejo de chegar em casa para um gole d’água, uma escovada de gato e um mergulho na cama. As 6 horas diárias e interruptas dormindo em ciclos de apneia o afastara da mulher, que ainda os confunde com ronco. Ela definitivamente não consegue dormir ao lado de um trovão, este sempre a cair no mesmo lugar. Por isso e por outros, o casamento já vai de mal a pior, embora o pedaço de bolo e as bexigas estejam a caminho especialmente em função do aniversário dela. Nem tão animada estava e ainda comemoraria trabalhando. Seus alunos, como evidência de sua contemporânea decadência, não mais se empolgavam com suas aulas, antes bem melhores. A decadente professora está insone, deitada sob o edredon oficial do Corinthians, os olhos no teto e a mente em ebulição, matutando sobre sua infelicidade com o relacionamento e com o trabalho. Ela já vem planejando um salto há certo tempo — um salto literal, da ponte, a mesma nonde vivem a se drogar os marginais e por onde passa, toda a santa madrugada, o carro guiado por um sonolento e apneico trabalhador. Barulho. Onze estalos e um bum mais forte ao final a fizeram perder a concentração. Há três ou quatro quilômetros dali, fogos de artifício no céu. Sussurra um homem deitado numa daquelas cadeiras brancas, próprias para um banho de sol. No céu, nuvens comuns a esconder a lua e outras, já com cheiro de pólvora. À beira da piscina, numa casa preciosamente decorada, ele pouco se esforça. Um aquecedor em forma de guarda-chuva ao lado, um sinal sonoro desconcentrante, um clique e o traficante vive a passar-rádio aos seus quilos de laranja espalhados pela noite. Fornece para os usuários da ponte, para todas as biqueiras da cidade e ainda é investidor dos grandes, pois possui ao menos dez lojas de conveniência que funcionam vinte e quatro horas por dia, aquelas dos postos de gasolina. É justamente numa dessas, inclusive, que trabalha o apneico. Às duas ele saiu do trabalho, encheu três bexigas que lhe sobraram vazias do aniversário de seu sobrinho, comprou um pedaço médio de bolo e ligou seu possante. Passou pela ponte e por um punhado de usuários de droga com o braço para fora, como se estivesse comemorando a vitória num grand prix de fórmula um, sem que ao menos os percebesse. Agora segue lutando contra o sono, já prestes a estacionar, bem perto de sua casa. Pretende fazer uma surpresa para a mulher que tanto ama e ser, como bom marido, o primeiro a dar os parabéns pelo seu aniversário. Na cabeça, um só pensamento:

Em casa tem vela?

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De São Paulo a Natal

Já participei da reunião da SBPC. Ainda cursava o penúltimo ano do meu segundo bacharelado e iniciava-me cientificamente num núcleo de pesquisas no Mackenzie. Foi em 2005, se agora não me engano. Na ocasião, saudosa fase em que comprava livros como se não houvesse amanhã, eu representei a faculdade lá no norte do país, em Belém, a capital do Pará, beirando o portal da Amazônia. Consegui que aprovassem um trabalho que discutia sobre as diferentes facetas de futuros empreendedores em relação aos seus valores pessoais e relativos a organizações. Complicadinho, sei bem, mas tal trabalho mudou minha vida. À luz daquela época, muito além da experiência de viajar com um grupo divertidérrimo de jovens, dançar carimbó, conhecer o Mercado Ver-o-Peso e de desvendar os mistérios de Matita Pereira, guardiã da floresta, passei a ler mais, a escrever melhor, a gostar demais de tudo isso e, sobretudo, passei também a ser mais crítico, a pensar em atuar como educador e a atuar, de fato. É categórico: hoje coordeno um centro de empreendedorismo, leciono e empreendo muito por conta de um dia — quem diria? — ter decidido me envolver com estudos mais robustos num grupinho de alunos realmente diferentes dos outros. Sábia decisão.

Hoje, dia 26/07/2010, vivencio mais um fruto daquela inesquecível conquista. À frente de alguns carioquinhas (o s com som de x), digitando aqui no aeroporto do Galeão, Rio de Janeiro, aguardo um voo de conexão que me levará à capital do Rio Grande do Norte: Natal. Lá, mais um congresso; mais uma participação no SBPC. Agora, além do tema do trabalho (Marketing Educacional), a diferença também está no fato de que sou maior, mais maduro e orgulhosamente assino como Professor Willian Girarde.

Primeira viagem que faço realmente sozinho, os próximos dias serão de descanso, lazer e reflexão. Escreverei sobre a experiência, sempre registrando, sempre, para não se esquecer jamais. Acompanhe por aqui e pelo Twitter (http://twitter.com/wgirarde).

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Downtown

Eu vi uma criança com uma garrafa de Guaraná Antarctica na mão enquanto uma senhora pobre e faminta clamava por um gole. Vi outra senhora, rica, andando com suas mãos atadas às do marido, um simpático senhor, ambos beirando os 80, numa cena de puro amor. Vi também uma dona de barraquinha contadora de histórias, obviamente contando histórias para os outros barraqueiros, colegas de trabalho. Eu vi uma garota ao telefone celular, roupa impecável, falando mal da amiga. Vi um rapaz maltrapilho, flamenguista e mal-educado, escarrando em plena avenida. Vi também um moço, rosto carrancudo, reclamando no momento em que viu um automóvel estancando a faixa de pedestres. Eu vi um ambiente de trabalho burocrático, pessoas aparentemente desmotivadas, mas um recado ao superior colado no monitor do computador: “Eu te amo, Chefe!”.

Foram 3 quilômetros caminhando (sem carro) no centro da cidade onde moro — Guarulhos.

(…)

Andei, vi pessoas. Sinto falta.

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1 ano em 30 dias

Machu Picchu

6h32 da manhã. Ainda não fui para a cama e é bastante provável que eu só a encontre no fim da noite de hoje. O ano anda tão agitado que o tempo parece voar. Já estive nas praias do litoral paulista, comemorei o aniversário de minha querida mãe, fui ao Peru (país surpreendentemente maravilhoso) e visitei Machu Picchu, uma das maravilhas do mundo moderno (foto). Além disso, mudei o planejamento estratégico da minha empresa, voltei ao Centro de Desenvolvimento do Empreendedorismo a todo vapor e também às queridas aulas na ESPA, onde trabalho com uma vontade danada. O ano anda tão agitado que a notícia de que meu aniversário, em maio, está chegando não me surpreenderia (também porque, pensando bem, está chegando mesmo). 28, beirando os 30.

Fazendo contas, fico feliz por isso: vivo 1 ano como se estivesse vivendo 10. E em 2010, mais 10.

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