Teoria da Xoxotinha

E eu ainda fui bacaninha. Porque basta que se pronunciem palavras como xoxota, transa ou outras até mais cabeludas para que um tipo de mulher fique boquiaberto. Boceta, por exemplo, nem pensar. Surge um tal hipócrita de ai, você não pode falar essas coisas! ou o clássico homem só pensa naquilo! que chega a enojar. É que, na prática, sob meu ponto de vista, mulheres e homens são animais racionais e fundamentalmente selvagens que vivem em sociedade. E, sendo assim — um bando de selvagens pensantes atolados numa porção generosa de valores sociais —, homens e mulheres precisam buscar o equilíbrio entre dois critérios — o social e o selvagem — para bem conviver individualmente e com os outros. O critério social diz respeito às ações que são socialmente aceitas e que regem o dia-a-dia do convívio em sociedade, tal como ser santinha e bem vestida, no caso das mulheres, e bem-sucedido, no caso dos homens; já o critério selvagem refere-se à condição instintiva, inata, por meio da qual pessoas expõem as emoções involuntariamente e sentem, por exemplo, a tal vontade-de-apertar-o-foda-se ou mesmo uma atração sexual incontrolável pelo proibido. [...] Acontece que, de tempos para cá, a maior fatia dos homens, ainda que tachada justamente de idiota e supérflua, aproximou-se da estabilidade, tanto a selvagem quanto a social; muitas mulheres, no entanto — muitas mesmo! — vêm passando por uma grave crise existencialista, com sangrentos conflitos, em si, entre o social e o selvagem. Em suma, enquanto o homem de certa forma se equilibrou quanto às questões selvagem-sociais, a mulher virou uma espécie de protagonista bêbada, cambaleando desorganizadamente entre a madame socialmente correta e a fêmea no cio. É quase um paradoxo: de um lado, essa tal mulher sugere que não pronunciemos palavras como xoxota; de outro, ela está sempre disposta a telefonar para um macho alfa ou trocar duas mensagens num desses chats modernos via celular para, à espreita, empinar o complexo bunda-xoxotinha e rebolar até o chão ou até outro objeto pontiagudo qualquer, como a boquinha de uma garrafa. Resultado dessa crise é o surgimento de um novo tipo de mulher dentre os muitos que por aí existem: a mulher-xoxotinha. O pior: surgiram muitas delas, em quantidade suficiente para deturpar toda uma sociedade. Daí a “teoria” que aqui defendo: neste mundo, mulheres-xoxotinha são responsáveis por boa parcela do caos.
A conta me parece simples. Há algum tempo, penso, a mulher conseguia equilibrar melhor os seus critérios. Quanto ao aspecto selvagem, não há dúvidas de que o exercia; mulheres constituíam, por exemplo, famílias bem grandes, muitas vezes ultrapassando a incrível marca de dez filhos. Já quanto ao aspecto social, a mulher era também mais bem definida; afinal, não era assim, de uma hora para outra, que um ser do sexo masculino a penetrava. Evidente, há algumas gerações as mulheres eram mais duras na queda, com os aspectos selvagem e social melhor definidos, desagregados. O tempo passou e, certamente em função da pressão que sofriam à época, as coisas mudaram. A mulher foi se tornando mais independente, passou a brigar justamente — no sentido de justiça — por igualdade de condições; acabou conquistando espaços nos quais nunca havia sequer pisado. Melhores contextos, liberdade para o trabalho e para o voto, independência financeira e mais autonomia na relação amorosa. Vieram os benefícios, mas também o ônus da conquista. Desorganizadas e desprotegidas, muitas exageraram na dose e passaram a se desequilibrar. Na prática, muitas mulheres passaram a respeitar mais os desejos selvagens instintivos, que iam além de somente dar a mão nos primeiros encontros, e entraram em crise profunda com a esfera social, posto que esta não aceitava as mudanças. Então, dispostas a solucionar a crise que as assolavam, definiram-se: surgia ali um tipo marginal de mulher que até hoje é atraente às vistas da selvageria masculina, ao mesmo tempo em que é essencialmente descabida de pudor social: a vadia, que vive a vadiar marginalmente, à mercê de seus instintos e sem se importar com a percepção que a sociedade tem sobre ela. Definiu-se assim, resolveu-se com a própria crise. [...] Para algumas outras, porém, a solução não era boa o suficiente; afinal, e a aceitabilidade social? Larápias, elas também foram se abrindo ao socialmente proibido e vivenciando a selvageria à sua moda, sem escrúpulos; mas no aspecto social, justamente pelos deslizes no aspecto selvagem, foram se tornando hipócritas e omissas. Mentiam, escondiam. Bingo! Enfim, uma solução plausível: era possível viver a selvageria sem limites e ainda assim ser aceita socialmente. Santa por fora, vadia por dentro. Surgia a mulher-xoxotinha, atualmente em voga e que geralmente detesta falar de sexo, mas que rala à meia-luz como nenhuma outra, que diz buscar o príncipe encantado, mas não resiste a um SMS do personal trainer — sim, o da barriguinha de tanquinho! — convidando-a para uma noite de exercícios especiais para os glúteos, ou mesmo aquela que, embora casada, vive com vontade de marcar uns pulinhos de cerca para experimentar aquela dita fantasia não-dita ao marido simplesmente porque a sociedade não aceita. Surgia ali, enfim, a mulher-xoxotinha, a mesma que anos depois usaria o Facebook para bem ilustrar suas principais características: na timeline, um mundo de belezas; na inbox, a menina selvagem, socialmente má. Nem boa, nem ruim; ela é assim.
Hoje, um fim-de-mundo sem igual: nos extremos da escala estão, de um lado, as mulheres bem definidas — também socialmente conhecidas como mulheres-para-casar —; de outro, as vadias assumidas; no meio, uma multidão nunca antes vista de mulheres-xoxotinha que andam detonando o paradigma das boas relações amorosas, entupindo a cabeça dos homens de necessidades supérfluas, abarrotando as academias de ginástica, expondo-se na TV como sensuais-mas-de-família, impulsionando ladrões e corruptos a roubarem por bons carros e casas — afinal, lá no fundo é isso que valorizam! —, andam fortalecendo ainda mais a descrença quanto ao casamento e o já quase extinto romantismo, fingindo segurança através de suas roupinhas da moda, banalizando as relações de trabalho, etc³. Elas estão por aí, pulando as cercas, trocando SMSs, mentindo e omitindo. [...] Ninguém vê, mas o mundo sente.
À guerra!
ComenteXilindró
De onde escrevo, sozinho observo. 18h30 de uma sexta-feira, segundo dia do mês de novembro, 2012, finados, e eu estou a aguardar uma amiga numa unidade brasileira da Starbucks — aquela famosa boutique de cafés norteamericana —, de onde, repito, sozinho observo. Noutro dia, também daqui, assim como agora, tive a clara impressão de que estamos presos. Com o perdão da demagogia, presos a nós mesmos. Daqui, de onde estou, já não tenho dúvidas de que, exceto por uma revolução no modo de pensar, o ser humano passou a ser prisioneiro de si; vive hoje como se o mundo girasse em torno de seu próprio eixo — ainda que, no peculiar caso, o tal eixo seja a própria cabeça, o diafragma, o bucho, a ponta do nariz ou mesmo a sola do pé. [...] Parece-me, inclusive, que a justifcativa deste texto está mais na mensagem que pretende pôr à prova do que na efetiva preocupação que tenho com os desconhecidos que aqui comigo estão, fato que, por si, de certa forma já me insere ao contexto que estou prestes a descrever. Também não escrevo somente pelo incômodo, mas sobretudo pela vontade que tenho de simplesmente retratar uma condição histórica, quiçá a ser lida por alguém em época mais adiante, provavelmente em condições diferentes, sejam elas melhores ou piores, saber-se-á somente lá. A mensagem diz respeito às novas condições por meio das quais fomos reprogramados, por meio das quais voltamos ao xilindró.
Antes, há dois séculos, um tempo nem tão diferente. Dica de leitura, o livro 1808 retrata a vinda da corte real portuguesa ao Brasil e seus impactos no atual molde geopolítico do país, que certamente teria sido outro se D. João e o núcleo de sua família por aqui não tivessem estado ao longo de longos 13 anos. Longos, explico, porque, dizem, os anos entre 1808 e 1821 compuseram um dos períodos mais impressionantes da história brasileira. Por um lado, muito em função da abertura dos portos e da imposição de valores europeus à cultura brasileira, evoluímos na educação, na infraestrutura, nos trâmites do comércio e pudemos vivenciar um quê da liberdade que nos levou, um ano depois do retorno da bendita corte às suas terras, à independência de Portugal, em 1822; por outro, o período foi o berço da politicagem e do nepotismo no Brasil, da ideia de ociosidade no trabalho e da exploração ainda maior de negros desafortunados, escravizados à época, tidos como burros-de-carga. Presos. [...] À luz daquela época, surgia a aristocracia no Brasil, potencializava-se a desigualdade social, a corrupção, a idolatria das sextas-feiras e o foco na individualização dos interesses.
Hoje. Liquidificadores produzindo frappuccinos, duas dezenas de notebooks abertos, papos do tipo conte-me-mais, altos tons de voz, tons de cinza, um muffin nojentamente mascado pelo homem-seguro-de-meia-idade, risadas forçadas ao fôlego da aceitabilidade social, cafés a $12,90, bolsas falsas e óculos-escuros comprados em seis vezes sem juros no Visa. Um bando longe de si. Aparentemente ideal, o ambiente aqui é, na verdade, bastante barulhento, caótico como os nossos ares, longe de ser agradável aos olhos de quem sobre ele reflete. Em altíssima resolução, é o retrato mais límpido possível de um quilombo contemporâneo, um novo Palmares concebido por modernos designers de interiores e aclimado com um ar engana-trouxa ao nível de agradáveis 22 Celsius. Nele, somos um bando de seres negros e brancos enfiados em roupas xadrez made in Brás devidamente engomadas e etiquetadas para justificar o elevado preço da vitrine e a percepção de valor claramente errônea por parte do consumidor; aqui, temos smartphones conectados 24/7 às tais redes que tanto nos distanciam, fios de cabelos crespos e alinhados temporariamente à moda de chapinhas baratas da 25 de Março, pois, espivetados, eles não resistem sequer a uma garoa ou a uma boa noite de sono; além, ainda estamos bezuntados em 500 ml de perfumes adocicados, com fragrâncias produzidas às centenas de toneladas nos laboratórios químicos não-sustentáveis que entulham as beiras de rios e rodovias por aí. 2012.
Bem verdade, nossa época é bem diferente em muitos aspectos, mas com condições essencialmente semelhantes às vividas no brasil-colônia. É que, de tempos para cá, aquela tal desigualdade social se consolidou e, com ela, também as novas sociedades geridas por um sistema operacional igualmente retrógrado, análogo ao que geria a escravatura. Antes, éramos escravos de outros; hoje, escravos de nossa própria mente, escravos das vontades que temos de conquistar os nossos — e somente nossos — objetivos, de suprir exclusivamente os nossos desejos. No máximo os de nossos mais próximos. [...] De onde escrevo, por fim, sozinho observo: vejo um desfile de seres fortemente preocupados com a própria aparência, encucados com as coisas que os outros vão pensar. Um universo confuso, que não se decide. Aqui, é como se todos fôssemos sóis, com outros sóis girando ao redor do meu eixo, do eixo do outro. Um mundo que parece socialmente bacaninha, mas é fundamentalmente individual; que parece ideal, mas somente parece. E é neste contexto que hoje vivemos: somos os novos escravos, escravos de nós mesmos. Vivemos no mundo do cada um por si: afinal, quem de nós vai bem? Quem de nós vai mais longe? Eu! Eu! [...] Somos burros-de-nossa-própria-carga. Somos, literalmente, meros indivíduos.
Onde estás, Isabel?
ComenteMuito mais além
Somente os homens de sorte são capazes de, numa noite clara, encontrar um ponto a partir do qual seja possível enxergar o céu com clareza de detalhes. Não aquele pretume absoluto, mas o céu imenso, intenso, farto de estrelas. E mesmo com todo ele à frente, completo, há quem acredite que o céu tem fim, que pára numa parede, fica intransponível num limite sólido o suficiente para impedir que alguém dali passe. Mentira. A esses — os céticos — posso afirmar com certa segurança: o céu não tem limite. [...] A evidência que comprova tal afirmação não está no que se diz por aí cientificamente. Muito pelo contrário: ela me apareceu num restaurante, no decorrer de uma conversa incrível. E o mais curioso: num restaurante sem vista para o céu.
Desde muito cedo, coitados, somos levados a acreditar que tudo tem limite: aprendemos na escola que o planeta nonde vivemos é cortado por trópicos imaginários e os países que o compõe, limitados por fronteiras também imaginárias. À medida que crescemos, somos moldados à luz das normas e dos diferentes costumes culturais. Respeitamos regras na família, criamos relações ciumentas do tipo isso-pode, isso-não-pode e ainda vivemos sob a égide dos alienantes códigos de conduta no trabalho. Em tudo há limite, por todos os lados: do crédito concedido pelos bancos às possibilidades de recordes no esporte olimpico; da capacidade produtiva à nossa mais vã paciência. [..] E mesmo quando nos estimulam a superar os limites, é preciso considerá-los para que haja a tal superação. É como se o mundo não funcionasse sem os limites.
Na prática, porém, não é bem assim: o mundo vive muito bem sem muitos deles, até porque todo limite tem seu contraponto desmoralizante. Para alguns, por exemplo, manter relações com o amor antigo é um fator limitador para que se conquiste um novo; para outros, contudo, abrir o coração ao novo é uma das formas de se desvencilhar do antigo. Mesmo a morte, vista como o mais tenebroso ponto final, pode ser encarada como limite da vida por muitos ou como ponto de partida de um novo ciclo por outros. Nas primeiras percepções, o limite; nas segundas, a impulsão. [...] Em suma, limitar é ação mental.
Entendi, por fim, que muitos de nossos limites são frutos de crenças infundadas, ou seja, são limites imaginários. No fundo, nem tão fundo assim, nunca existiu um limite para o encontro de um novo amor, novas amizades, novas culturas e novos assuntos. Exceto pela crença infundada de que seguir em frente é, por si, um limite, nada nos impede de seguir em frente, viver novas experiências e, ao fim, rir do passado, seja ele bom ou ruim. [...] Ontem, lá no restaurante, fui homem de sorte. Conectei-me a um ponto a partir do qual foi possível ver tudo de um modo diferente, sob outra ótica. Quebrou-se o limite. Foi como olhar para o céu e, por sorte, deparar-me com o imenso, o intenso, com a fartura de estrelas. Sem limite, sem fim. Tudo de novo.
Fui muito mais além.
A fábrica de giz
Cobrindo a rua sem saída, enterrados lado a lado, paralelepípedos. Decerto a aplicação de asfalto ali não se justificava pelo baixo movimento, decisão que perdura até hoje. Era a ruinha, um campo improvisado de futebol — e também das batalhas de pega-pega, esconde-esconde, etc. — no coração do bairro onde cresci. No chão, contávamos quatro pedregulhos ou pés, que enfileirados distanciavam um chinelo de outro, a medida do gol. Pela justiça, preferíamos os paralelepípedos aos pés, estes nem todos do mesmo tamanho. Bastavam, portanto, quatro chinelos, dois times de moleques e uma bola velha; quando muito, uma ou outra garota completavam a brincadeira. Por fim, por inteiros muitos dias dos derradeiros 80s e início dos 90, formávamos um bando de crianças pernas-de-pau — parece-me o coletivo mais justo — a gritar, cada qual na sua posição, atacante, goleador ou não; toda uma infância de bate-bola saudável e amizade.
Onde a ruinha não tinha fim, havia uma espécie de rotatória — um círculo de pedra no qual motoristas perdidos podiam manobrar para o retorno à avenida principal — e um muro bem alto que separava o campo de uma fábrica de giz praticamente desativada. Para lá, por sobre o tal muro, voavam as bolas dos que erravam um chute mais forte, ou pior, dos que as embicavam sem dó por pura falta de talento. E para lá não voaram poucas, que eram prontamente substituídas, ao menos até que um de nossos pais nos comprassem outra de capotão, por bolas malfeitas de papel, por outra brincadeira qualquer ou, principalmente quando os ponteiros beiravam as seis do fim da tarde, por um simples tchau, vou entrar, logo minha mãe me chama. Os anos se passavam e para lá, por sobre o muro, continuavam a voar as bolas que lá ficavam porque, à época já desativada, a fábrica de giz nem seguranças noturnos tinha mais, sequer os cães bravos típicos das placas de alerta. Lá, às escuras, as bolas de capotão e papel pereciam. [...] Então, sem que eu pudesse conhecer algum trabalhador ou empresário dali, cresci. Ao longo de toda a minha adolescência havia um estigma de que a tal fábrica era fantasma. E bem que parecia. Foi somente quando eu já beirava os 30 que ela desapareceu definitivamente. A fábrica de giz tinha sido, enfim, comprada por uma construtora e seria varrida pelos braços de aço dos tratores. Saíam os gizes, entravam os prédios. Era o fim da esperança de resgatar ao menos uma de nossas bolas perdidas. Mais uma vez, como para sempre acontecerá, a história se alterava.
Há pouco, perplexo, passei a pé em frente ao local onde jaz a saudosa fábrica de giz. Enfincados no local já estão sete ou oito prédios residenciais onde morarão, em poucos meses, milhares de pessoas. Ali — afinal, em nossos tempos poucos investiriam num produto tão obsoleto —, nunca mais haverá uma fábrica de giz. Também, exceto em meus devaneios, não voltarei a ser criança. Porque, via de regra, as coisas mudam. Num dia, rua e futebol; noutro, mais adiante, trabalho e internet. Num dia, pais jovens e enérgicos; noutro, os mesmos, mas com cabelos brancos e carentes da ajuda dos filhos. Num dia, uma relação aparentemente eterna; noutro, outra relação ainda melhor para substituir a anterior. Num dia, aqui; noutro, como num lapso, a morte e a estadia não mais por aqui, mas acolá. [...] Enfim, é preciso aceitar mudanças porque, via de regra, mudam a época, a cor das fotos, as pessoas ao redor, os amigos, o trabalho, a rotina, a elasticidade da pele, o jeito de pensar e agir, a configuração dos móveis ou a própria casa; mudam as cidades, as pessoas, as formas de se entreter, a comunicação, as brincadeiras, as crianças, muda a vida. Muda tudo, tudo muda, todo o tempo. [...] Num dia, giz; noutro, um tipo de caneta com tinta apagável.
Apaguemos a lousa. Há sempre novos conteúdos.
ComenteCrise do entusiasmo
É como se a Terra, de uma hora para outra, tivesse se transformado no paraíso (?) — o próprio. De repente, de supetão, de bate-pronto, dezenas de caminhões passaram a descarregar, segundo a segundo, toneladas de mensagens de otimismo nas redes sociais, nos livros, na TV, nos discursos, n’todo lugar. São milhares e milhares que se dizem absolutamente crentes no poder divino, límpidas e leves como a água Bonafont. Uma filosofia do sabe-nada, dos versos e versões paraguayos de Drummond e Lispector. É um tal de superar dificuldades, do amor sobre todas as coisas, o amor sem falhas, da valorização da beleza interior, dos sorrisos-Colgate em ambientes perfeitos, da aclamação da leitura e da cultura, da fidelidade, do ser-diferente; um tal de defender a igualdade racial, proteger o meio ambiente e sustentá-lo como produto-fim da criação divina. Um arco-íris do existir que, ao invés de paraíso, mais se configura como uma gruta ou uma iguaria fétida coberta por um apanhado generoso de baboseiras, falsidades à toa e uma cereja paraguaya — daquelas que mais se parecem com uma gelatina — no topo.
A etimologia da palavra nos remete a um estado otimista do espírito: entusiasmo vem do grego e significa, literalmente, em Deus. Aqui, neste feio mundinho, vivemos a sua crise — a crise do entusiasmo —, uma resultante natural da característica mais visível em muitos dos seres que por aqui caminham: a incoerência. É que sob a máscara do spammer, o tal a nos enviar ininterruptamente toneladas de mensagens de otimismo, geralmente está uma pessoa incoerente e que não aplica em vida as palavras tão compartilhadas nos faces da vida. Não é raro identificar, por exemplo, um rancoroso — do tipo que não perdoa e carrega sentimentos de ódio por longos anos — apregoando o perdão e os votos de paz e amor eterno nas relações. Vejo uma ali aclamando a fidelidade, danadinha, ao mesmo tempo em que aguarda a viagem de negócios do marido para pular a cerca. Acolá, um interesseiro de primeira categoria envia mensagens em favor do verde, da Terra-de-meu-Deus, mas nem tanto; manda-nos, na verdade, muito mais em favor de que digitemos seu número e apertemos o botão verde, bem verdinho, o do confirma, à época das eleições. Defronte ao computador, uma senhorita envia aos nascidos no dia — porque, convenhamos, a ferramenta facilita — uma lista enorme de Parabéns! na base do control C + control V, muito mais com o intuito de manter a boa imagem do que para realmente parabenizá-los. Por aqui também não é raro identificar profissionais frustrados ou indivíduos depressivos que nas redes, nas fotos, nos discursos, perfumam-se como se em Beverly Hills ou em Chicago. Falso testemunho. Dizem, recomenda-se que nessas horas haja uma conversa profunda com Deus. Pois ao invés de fazê-lo, de fato e em silêncio, que tal um “Obrigado, Senhor!” em troca de alguns cliques-curtir? Acontece. E acontece muito mais.
Se por aqui tudo há, todo esse otimismo, por que continuamos em crise? Por que o tal otimismo não nos leva, de fato, às relações e aos atos de amor puro? Por que, sendo o mundo assim tão divino e com pessoas tão aparentemente belas, os relacionamentos não perduram — ou pior, quando perduram, seguem às trancas e barrancas? Por que muitos dentre os que falsamente creem — aqui classificados como spammers — comportam-se de modo tão diferente na vida real? Por que a beleza das fotos não reflete o que vemos no comportamento do dia-a-dia? Por que o mundo, mesmo o tão ilusoriamente belo, aparenta estar anos-luz distante dos ditames de Deus? Por que, sendo assim, o tal egoísmo ainda é tão presente? [...] Onde estão os sorrisos-Colgate de verdade? Onde estão os ambientes perfeitos das fotos e das mensagens no Facebook? Onde estão os belos-por-dentro que tão valorizados são? Onde está o nó que desata o problema do racismo e da sustentabilidade no mundo? Enfim, onde estão os benditos livros com páginas encardidas de tanta leitura? Onde?
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