Posts por Willian Girarde

Daniel

 

Daniel

 

A corvina é um peixe. E é só isso que eu sei. Aliás, sobre peixes eu sei pouco. Sempre fui um pescador de meia-tigela. Conheço mais de futebol, desse sempre gostei, embora não tenha sido um jogador tão bom assim. Minha querida mãe diz que eu mais ficava no chão do que jogava; era do tipo cai-cai. Hoje é conveniente colocar a culpa em algo ou alguém e eu costumo culpar meus joelhos pelo mau desempenho nos campos, ambos — mais o direito que o esquerdo — tortos desde pequeno. A verdade, confesso, é que eu era um típico pé-torto, literalmente. Cheguei a usar botas ortopédicas quando criança. Ah, e era um pé-torto também com as mulheres. É que sempre fui muito tímido e, sendo assim, fazia pouco para conquistá-las. Justamente por isso — e com o auxílio do fato de que nunca fui um galã de novela — não conquistava muitas delas. Até que namorei com algumas, mas nunca por conta de tê-las conquistado num papo ousado; as conquistas eram geralmente obras do acaso. Pescaria, futebol e mulheres, apesar de tudo, sempre estiveram presentes em minha vida, também desde a infância — no caso das mulheres, evidente, desde a adolescência. Eram rotineiras minhas visitas a um pesqueiro qualquer, ao campo de futebol do Esporte Clube Vila Galvão nas manhãs de domingo ou às festinhas juvenis repletas de possíveis paqueras. Cresci assim e uma improvável história da minha vida contada em livro traria, necessariamente, esses capítulos.

Certa vez, numa pescaria, uma vara equipada com molinete e uma boa linha teve suas iscas lançadas ao mar. Iscas, no plural. É que na linha havia, como se fosse uma espinha de peixe, coitado, vários anzóis. Vários, uns três. E há de se concordar que três anzóis para a mesma vara de pescar é um número considerável. Eu no barco, sentado, uns 15 de idade, só vendo. Segurando a arma estava Tio Daniel. Dizia que pescaria três peixes numa só fisgada. Três corvinas. Em instantes, a vara envergou. Envergou tanto que meu coração pulou de alegria. Pesquei um! A fisgada parecia ter sido forte o bastante para que nem fosse necessária a puxada. Cheguei a saltar, mas Tio Daniel pediu para que eu ficasse ali, aguardando paciente como são os bons pescadores. A linha percorria a água no mesmo ritmo em que as pobres corvinas tentavam se livrar da armadilha e eu imaginava que não seria possível identificar se, de fato, três peixes estariam ali. Dois ou três minutos depois, para minha surpresa, Tio Daniel tirou os anzóis da água. Três corvinas. Três. Pensando bem, talvez ele tenha me pregado uma peça — como as que meu querido pai pregava, fisgando um peixe e pedindo para que eu puxasse, dando impressão de que eu mesmo havia pescado —, mas aquela história me marcou. Até hoje.

Aos domingos, quando pela manhã jogava bola, acordava bem cedo. Se até hoje, adulto mergulhado em trabalho, sou do tipo noturno, imagine na época. Imaginou? Errou. Aos domingos eu acordava bem cedo. 6h00 e nem ligava. Adorava jogar futebol no — à época aparentemente muito mais gigante — campo de futebol do Esporte Clube Vila Galvão. Vestia a 8, um short azul curto e uma camiseta comum, pois a de jogo nos entregavam no vestiário. Era um bando de moleques correndo atrás da bola, sem a mínima noção de posicionamento, e as mães gritando na arquibancada. Corre, filho! Vá atrás da bola! E, exceto pelos goleiros que fincavam o pé sob a gigantesca trave, todos os outros corriam, do zagueiro ao ponta esquerda. Chegava a subir poeira do campo, numa espécie de nuvem de areia recheada de molecada. Às vezes até o técnico — geralmente o amigo bêbado dos pais — parava de dar orientações à beira do gramado para também correr. Era uma bagunça. Pela manhã, em casa, era possível acordar com o cleck-cleck das travas da minha chuteira no chão; eu vestia a 8, um short azul, uma camiseta comum e a tal chuteira com travas que faziam barulho no caminhar. A primeira, lembro-me, foi um presente do Tio Daniel. Ele dizia gostar do meu estilo meia-direita e não havia uma só partida em que não me dava força no pré-jogo. Criança, encarava aquilo com muita seriedade e e as palavras de motivação daquela figura adulta ecoava como algo incrivelmente profissional. Ecoam como lembranças até hoje.

Tio Daniel dizia que eu tinha sorte com as mulheres, que todas as minhas namoradas eram magras, bonitas e charmosas. E eu dizia, pela força que me dava contra minha timidez e por todo o tempo que gastava nas avaliações de garotas, que ele seria padrinho do casamento entre mim e a sortuda que porventura subisse no altar ao meu lado. E não havia uma só vez que ele não me cobrava, a cada vez que nos reencontrávamos. O tempo passou e na última vez que me encontrei com Tio Daniel, há alguns meses — creio que estávamos sem um encontro havia 3 anos —, a primeira coisa que fez foi me abraçar forte e beijar meu rosto, como sempre fazia. Depois perguntou sobre as mulheres, cobrou o cargo de padrinho e pediu para que eu mostrasse a foto da namorada, ali mesmo no celular. Aprovou. Perguntou, então, se eu andava jogando bola, se continuava sendo aquele camisa 8 promissor. Por fim, lembramos com muitas gargalhadas a história das corvinas. Ele teimava em não assumir o truque e reiterou que pescara, de fato, as três de uma só vez. Será?

Hoje, infelizmente, recebi a notícia de que eu nunca saberei a verdade sobre essa histórica fisgada. Nunca. Hoje, a notícia da morte do Tio Daniel me pegou de surpresa, colocou-me de bruços no tablado como num nocaute relâmpago. Um soco certeiro na fuça. Foi-se um dos pescadores mais habilidosos. Foi-se um técnico de futebol de primeira. Foi-se embora um dos meus padrinhos.

Um beijo, Tio.

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Ford

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Eu posso ser chamado de macaco, contanto que seja branco. Posso gostar de esporte, contanto que não seja balé clássico. Posso colecionar figurinhas num álbum da Copa, contanto que esteja em plena adolescência. Eu posso assistir a tv, contanto que sejam canais fechados ou séries norte-americanas com grandes sacadas no roteiro e atores de primeira linhagem. E posso também acessar a internet, contanto que não seja a página das celebridades. Posso gostar de música, contanto que não seja do gênero popular. Ler, contanto que sejam os best-sellers. Posso ainda adquirir um celular, contanto que tenha 4G e sistema operacional de último tipo. Eu posso ler mensagens no Whatsapp a qualquer momento, contanto que responda prontamente — ou não, caso queira passar a imagem de que estou ocupado. Posso fazer check-in no foursquare, contanto que seja num local bacaninha-invejável. Posso também chegar tarde em casa, contanto que seja durante o final de semana. Porque durante a semana, lembrei-me, eu posso acordar no horário mais conveniente, contanto que seja bem cedinho. Posso gastar meu mísero salário com o que bem entender, contanto que tenha a garantia da poupança. Depois posso viajar bastante, contanto que seja para lugares descolados como Europa e Estados Unidos. Posso comprar roupas, contanto que estampem marca. Posso até morar com meus pais, contanto que não tenha ultrapassado os 24 anos de idade. Eu posso escolher a carreira que sempre sonhei, contanto que seja uma das clássicas. Então, filosofar inteligentemente, contanto que tenha estudado na USP. Ser professor, contanto que eu tenha outro emprego. E trabalhar, claro, contanto que seja para encher as burras de dinheiro. Depois poderei comprar o carro que eu quiser, contanto que não seja um Uno. E ainda postar uma foto no Instagram, contanto que a pose e o filtro beneficiem o meu visual. Eu posso morar de aluguel, contanto que tenha outra casa em meu nome, provavelmente também alugada. Mais tarde posso até ganhar um apartamento, contanto que não seja doado por meus pais. E nele tomar banho, contanto que seja bem curtinho. Eu posso ainda ter filhos, contanto que seja casado. Adquirir uma cafeteira, contanto que as cápsulas para o preparo sejam daquelas que todos gostariam de ter. Posso assinar revistas e canais de tv, contanto que não sejam eróticos. Assistir a Galinha Pintadinha no blu-ray da sala, contanto que não esteja sozinho. Poderei ingerir o que quiser neste mundo, contanto que não seja churrasco grego na rua, logo depois do expediente. De repente até comer em grandes quantidades, contanto que eu separe do lanche a gordurinha, deixando-a de lado. Posso, então, ir à igreja para uma rezinha, contanto que seja por puro deboche. E depois, veja só, eu também poderei fazer piadas, contanto que sejam inteligentes. Enfim, eu posso ser homem, contanto que não seja baixinho, gordo  ou careca. (…) Escrever sobre o que eu quiser.

Em 1914, a frase dizia que o cliente poderia ter o carro na cor de sua preferência, contanto que fosse preto.

Nada mudou, Sr Henry.

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Re: Esquecimento

 

esquecimento

 

Certa vez meu pai me mandou um e-mail que versava sobre um senhor que, depois dos 60, era esquecido pelos familiares. Talvez ele quisesse nos passar a mensagem de que estava sendo esquecido por todos. Pois chegou a hora de eu responder a esse e-mail. E em público.

Pai, mesmo antes do desaparecimento de meu querido avô — Ernesto —, você já era referência na família. Depois, mais ainda. E se pensarmos que você ainda é visto por todos como referência, então já aí seu e-mail contém falhas. Afinal, se és uma referência, é evidente que não pode ser dado como esquecido. Mas ainda temos os fatos do cotidiano, e aí vão alguns exemplos. Minhas queridas sobrinhas Nicoli e Marina não se esquecem, diariamente, que é o vovô quem as leva e quem as busca no colégio. E também não se esquecem do vovô nas horas boas — Afinal, onde ele escondeu as balas? — e nas raríssimas horas de bronca — Será que vovô vai ficar bravo se eu mexer no computador dele?. Nunca fica. Aliás, a quem Marina recorre quando precisa convencer a mamãe Cynthia a dormir na sua casa? Preciso dizer? Quem anda contigo, sabe: basta percorrer dois ou três quilômetros nas ruas de Guarulhos ou Careaçu, nas Minas Gerais, para que sua teoria vá para o brejo; não há uma ocasião sequer em que você não cumprimente alguém, acene ou grite “Como você está, pinguço?”, referindo-se a algum querido amigo. Sempre brincalhão, até meus amigos se lembram de suas piadas. Todos eles te chamam de Seo Oda. E é esse Oda, Odair, Bigode, enfim, é esse o homem que não se dá como esquecido. Estou para te dizer que, se depender de minha mãe — Odorica — sua teoria não tem o mínimo fundamento. Essa mulher, pela qual eu também vivo, pensa em ti o dia inteiro. Odair saiu para caminhar, Odair vai almoçar, Odair foi à Loja Maçônica, Odair está roncando na outra cama. É a companheira que por ti vive. Vivem juntos, passeiam, brincam, viajam, não se desgrudam. Não se esquecem sequer por um segundo. Ninguém te esquece.

Pai, respondo-te para dizer que estou descartando seu e-mail. Você não se parece nem um pouco com o injustiçado senhor que, depois dos 60, foi esquecido pelos familiares. Muito pelo contrário: hoje você está recebendo de familiares, irmãos e amigos uma justíssima e sincera homenagem, esta que comprova: você não somente é lembrado, mas digno de prestígio. Simbolicamente, esta celebração te eterniza também nas nossas mais bonitas e divertidas lembranças. Meus parabéns!

E-mail respondido.

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Groselha

 

groselha

 

Num bairro de endinheirados, a garota morena mergulha na cama, desliza o dedo sobre o smartphone, abre o aplicativo que a conecta a centenas de pessoas e encaminha a mesmíssima mensagem de Natal a todos. No texto, a menção de que todos os destinatários, sem sequer uma exceção, são especiais. Feliz Natal! Na tela do moderno computador, ao lado, um punhado de mensagens coloridas e conteúdos que emanam — ou ao menos pretendem — energias positivas, com votos de harmonia, fartura, saúde e muita alegria a todos. Empolga-se a garota, porém, com a quantidade de pessoas que respondem no mesmo tom e curtem, com um clique-joia, todas as suas postagens. É que a ela as festas de fim de ano são muito mais proveitosas, na prática, quando lhe servem como terapia; uma forma confortável de se conectar a amigos que comumente não lhe dão atenção noutras épocas e, de quebra, ainda aumentar o seu índice de likes, este geralmente alto por conta das fotos sensuais que costuma publicar. Ego. Não longe, num bairro de famílias menos abastadas, a mãe-de-duas-filhas está de férias desde o início de dezembro — dá aula em três turnos e ganha, por conta da furada política educacional do governo, uma miséria. É Natal! No fim da tarde, pendura um bocado de enfeites em acrílico numa espécie de varal, prega uma guirlanda em cada porta e improvisa um benjamim para ligar, na mesma tomada, o aparelho de som magazine e a árvore artificial de Natal, sob a qual estarão todos os presentes. A previsão é de que alguns amigos e toda a família compareça, inclusive alguns de seus desafetos: a velha tia, por exemplo, sobre a qual fala mal o ano inteiro. A mãe-de-duas-filhas está concentradíssima em ser, como anfitriã, bastante respeitosa durante a noite, consciente de que em noite de Natal duas condições são imprescindíveis: (1) que não haja as brigas — essas permitidas somente em datas não-comemorativas — e (2) que os presentes adquiridos para as filhas, ainda que em doze vezes sem juros no cartão de crédito, sejam melhores e mais caros do que os presentes comprados por outras mães. Feliz Compra! A propósito, num país em que o clima médio gira em torno dos 26 graus Celsius, shopping centers jogam flocos de sabão ao alto para simular a neve que só cai, quando cai, em países do hemisfério norte nesta época do ano, mas não só; todos eles têm um representante de Papai Noel fazendo biscate pró-impostos-2014 — geralmente um senhor sexagenário, com barba branca natural, enfiado numa roupa quente e com a coxa esfolada de tanta bundinha infantil que por ali senta. Tudo, tudo isso, para atrair as garotas endinheiradas, as mães-de-duas-filhas e todos os muitos outros que se submetem ao novo e triste formato dos eventos natalinos.

À meia noite, quando muito todos oram. Mas o fazem rapidamente, porém, pois o foco geralmente é outro. O mais comum é que a 0h00 seja aguardada para a chegada do tio fantasiado e um rápido abraço de Feliz Natal. em todos, sem ponto de exclamação. A garota morena prefere não engordar com a adiposa ceia e, ao invés disso, mergulha novamente na cama para alimentar a já congestionada operadora de telefonia celular com mais uma ou duas dezenas de mensagens idênticas. As duas filhas entram num rasga-rasga de papeis e, enfim, depois de 2 meses e 15 dias de espera, voltam suas atenções aos troféus. É que a mãe-das-duas, agora orgulhosa, pôde consolidar a vitória na disputa do aclamado prêmio Melhor Presente aos Filhos 2013. Votos de saúde são prontamente contrariados pelos exageros na comilança, que ficam por conta dos homens e das gordinhas mais relaxadas. Alguns chegam a ingerir todo um quilo de um compilado contendo alimentos não-convencionais: chester-bolinha, carne com trecos, maionese com uva passa, champáguine, arroz com frutas cristalizadas, lentilha (da sorte), panetone e uma arroba e meia de nozes e tipos raros de amendoins. Depois as crianças acabam enjoando dos presentes, os homens passam a embebedar, as mulheres ficam sem papo. E termina o Natal. Ah, gente, foi tudo impecável! Obrigada!

(…)

Crerei em seus votos de Feliz Natal! somente se, em todos os outros dias, os desejos permanecerem vivos e na mesma intensidade. Crerei na pureza de sua festa natalina somente se, em todos os outros dias, você não gastar seu tempo falando mal de familiares, amigos ou quaisquer outros. Crerei no conteúdo de sua mensagem virtual somente se ela for enviada pessoalmente num outro dia qualquer, com o mesmo teor. Crerei no seu espírito natalino quando os seus presentes forem, de fato, somente o plano de fundo de uma reflexão muito mais bacana, divina, muito mais duradoura. Caso contrário, sobretudo se concentrada num só dia, a tal bondade me parece muito fácil de ser vivida. Cheira a fake, conveniente demais. (…) No fim das contas, acho injusta a desconstrução da motivação original do Natal, hoje substituída por um moderno evento de culto ao ego, à gula e ao consumo desvairado.

A propósito, você quer groselha?

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Vela

 

vela

 

O final da mureta da ponte não chega à parede. Aquele povo passa pelo vão e ajeita o traseiro por ali, na terra mesmo. Às margens do córrego que separa as duas maiores cidades paulistas, madruga à beira de uma fogueira um punhado de gente que usa todo tipo de droga segundo o próprio arbítrio. O ambiente escuro, exceto pela chama, é tomado pelo cheiro de fumaça canabina e pele humana que não se banha há dias. É gente que perambula em frente aos carros e cutuca vidros que refletem a luz vermelha do semáforo, geralmente em busca de alguns centavos a mais e mais, até que se some o valor de mais uma pedrinha ou uma papeleta recheada. Então, munida, essa gente passa pelo vão, senta o traseiro à beira da fogueira, na terra mesmo, e usa. Usa de novo e de novo, comumente ao longo de toda a madrugada. Usuários, marginais. Às 3h00 da manhã, passa o trabalhador em seu possante, atravessa a tal ponte sobre o córrego e não percebe o grupo. Imerso em ar condicionado configurado para exatos 22 Celsius, ele não sente sequer um fio do cheiro exalado pelo fétido-pútrido córrego que, misturado ao cecê da galera, remete a um intenso chorume. O semáforo verde, por pura sorte, o exime das abordagens e ele se livra de esmolar em prol do tráfico. No banco de trás, um pedaço de bolo e três bexigas insistem em lhe tapar a retrovisão. A mão espalmada, já gélida, e o braço posto para fora da janela tinham lá sua justificativa: depois de um dia de trabalho, nada como um truque secular para derrotar o sono e, por fim, suprir o desejo de chegar em casa para um gole d’água, uma escovada de gato e um mergulho na cama. As 6 horas diárias e interruptas dormindo em ciclos de apneia o afastara da mulher, que ainda os confunde com ronco. Ela definitivamente não consegue dormir ao lado de um trovão, este sempre a cair no mesmo lugar. Por isso e por outros, o casamento já vai de mal a pior, embora o pedaço de bolo e as bexigas estejam a caminho especialmente em função do aniversário dela. Nem tão animada estava e ainda comemoraria trabalhando. Seus alunos, como evidência de sua contemporânea decadência, não mais se empolgavam com suas aulas, antes bem melhores. A decadente professora está insone, deitada sob o edredon oficial do Corinthians, os olhos no teto e a mente em ebulição, matutando sobre sua infelicidade com o relacionamento e com o trabalho. Ela já vem planejando um salto há certo tempo — um salto literal, da ponte, a mesma nonde vivem a se drogar os marginais e por onde passa, toda a santa madrugada, o carro guiado por um sonolento e apneico trabalhador. Barulho. Onze estalos e um bum mais forte ao final a fizeram perder a concentração. Há três ou quatro quilômetros dali, fogos de artifício no céu. Sussurra um homem deitado numa daquelas cadeiras brancas, próprias para um banho de sol. No céu, nuvens comuns a esconder a lua e outras, já com cheiro de pólvora. À beira da piscina, numa casa preciosamente decorada, ele pouco se esforça. Um aquecedor em forma de guarda-chuva ao lado, um sinal sonoro desconcentrante, um clique e o traficante vive a passar-rádio aos seus quilos de laranja espalhados pela noite. Fornece para os usuários da ponte, para todas as biqueiras da cidade e ainda é investidor dos grandes, pois possui ao menos dez lojas de conveniência que funcionam vinte e quatro horas por dia, aquelas dos postos de gasolina. É justamente numa dessas, inclusive, que trabalha o apneico. Às duas ele saiu do trabalho, encheu três bexigas que lhe sobraram vazias do aniversário de seu sobrinho, comprou um pedaço médio de bolo e ligou seu possante. Passou pela ponte e por um punhado de usuários de droga com o braço para fora, como se estivesse comemorando a vitória num grand prix de fórmula um, sem que ao menos os percebesse. Agora segue lutando contra o sono, já prestes a estacionar, bem perto de sua casa. Pretende fazer uma surpresa para a mulher que tanto ama e ser, como bom marido, o primeiro a dar os parabéns pelo seu aniversário. Na cabeça, um só pensamento:

Em casa tem vela?

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