De Gasparian a Mello — Parte I
Os botões dos andares eram velhos, eu sempre achei que aquele elevador cairia. Por um período, levou-me diariamente ao último andar de um prédio branco, meio fino quando visto da portaria. Verdade que quando o visitei pela primeira vez não me atentei aos detalhes. Eu estava nervoso, queimando sob o sol num terno preto, brega, do tipo mequetrefe-barato que nem defunto usaria; talvez o único que meu armário guardava na época. Na primeira vez, sem olhar para seu botões velhos, para a estrutura ou sequer pensar sobre a possibilidade de me espatifar com sua queda, saí do elevador e procurei pelo número do apartamento. Rara vez, eu não estava atrasado. Deparei-me, no canto à direita, com uma porta entreaberta e protegida por um tapetinho feio. Era ali. Tinha chegado a hora. Entrei, vi uma escada daquelas que sobem girando, uma cozinha à direita e um pequeno espaço, este em frente a uma porta que, fechada, escondia um quarto. Era o quarto dele. Do andar de cima do apartamento duplex ouvi um Pode subir! em voz alta. A voz era de Ronaldo Gasparian — aclamado deejay, ídolo de minha adolescência e de quem eu havia conseguido um autógrafo meses antes. Era a entrevista da minha vida. Subi as escadas e não me senti bem, certamente porque o terno preto e brega aliado ao meu nervosismo não diziam em meu favor. Conversamos durante horas e, também porque a priori eu nada receberia, acabei admitido mesmo usando aquele terno: no fim das contas, pensando bem, ficava barato. Você vai trabalhar aqui — ele apontava para uma cadeira surrada e um computador montado sobre uma mesa que dava para uma parede branca, opaca, com teclado verde — e hoje eu não tenho como te pagar. Garanto-lhe, se aceitar, que você vai aprender como nunca. [...] E ali, com ele, eu realmente aprendi como nunca. Novos sonhos, novas direções, novos caminhos. Uma nova forma de enxergar o mundo, uma nova vida.
Eu tinha um carro importado e automático da Nissan. Era do meu pai, bem verdade, mas fui me apropriando dele até que, num belo dia, tornou-se meu. Na época eu ainda cursava a faculdade de comunicação, que ficava em São Bernardo do Campo. Eu ia e voltava, ia e voltava, gastava combustível suficiente para abastecer uma cidade de 15 mil habitantes e não ganhava um puto. Destruí o carro. Mentia em casa dizendo que ganhava uns trocados, mas no começo nada. Havia dias em que Ronaldo e eu madrugávamos a trabalhar em novos projetos para a RadioDJ ou em festas nas quais ele era a atração principal. Não aceitava que me pagasse as refeições todas as vezes [ficava sem comer] e, também por vergonha, deixei de usar ternos, inclusive os bregas. Usava roupas normais. Aprendi a usar telefone comercialmente quando era obrigado a dialogar com as mães de garotos que se interessavam pelos cursos de música que organizávamos. Passei a escrever melhor quando meus erros de português eram revisados por Ronaldo, que respondia e reencaminhava os e-mails já com a correção. Ali aprendi que dinheiro, ainda que usado para a manutenção preventiva de um Volvo caríssimo, não se colhe em árvore. Vi pela primeira vez um computador sendo montado do cabo ao rabo do mouse. Percebi que longas conversas filosóficas sobre a vida são possíveis a todo o tempo e que tais, quando construtivas, nos levam a novos ares, sempre. Aprendi que precisamos doar as coisas que temos às pessoas que as valorizam mais. No banco do passageiro, rodei por milhares de quilômetros no trânsito de São Paulo e aprendi a andar por caminhos alternativos. Joguei fliperama em horários de trabalho, trabalhei muito enquanto os outros se divertiam. Chorei sem medo. Fui flagrado dormindo em frente ao computador por um dos equipamentos ultratecnológicos que Ronaldo costumava comprar a preço de ouro na Santa Ifigênia — no caso, uma até então raríssima webcam conectada à internet. Aprendi, por curiosidade, a usar softwares de edição de imagem e HTML. Passei a usar o brilho e o contraste de modo exagerado nas fotos digitais. Conheci gente chique, sobretudo as donas enrugadas das lojas do Shopping Iguatemi e da Gabriel Monteiro da Silva. Conheci gente legal. Vi Ronaldo bravo — e vermelho! — quando eu cometia erros patéticos. Tomava bronca, recebia elogios. Sofria, mas aprendi como nunca. Eu realmente aprendi como nunca. [...] Anos depois, já num novo escritório, bem perto do apartamento onde o elevador dos botões velhos sobrevivia a duras penas, assisti à ascensão de Ronaldo, que crescia como profissional da música e empresário. Acompanhei boa parte dessa fase em que ele, mesmo vindo de família abastada, passava por perrengues de gente comum e realizava, ainda assim, os antes-inconcebíveis sonhos com as próprias mãos e talento. E eu aprendi assim, na surra. Aprendi que aprender é na base da surra.
No novo escritório, um espaço amplo com ar condicionado, frigobar, computadores de última geração e móveis bonitos de se ver. No novo prédio, um elevador decente, novo, de aço escovado, que até emitia o som da voz aeroportuária de uma mulher: Décimo quarto andar! Desce!. Era diferente: botões bonitos, manutenção em dia e a possibilidade quase nula de queda. E ali eu subia, descia, subia, descia, subia, descia, todos os dias, até que um dia eu não subi mais. Enfim, tinha chegado a hora de eu colocar em prática, do meu jeito, o que o mestre havia me ensinado. Era a minha vez.
Eu precisava entrevistar alguém.
Sobre a morte
É certo: uma hora o coração pára. Pára o corpo, param mente e sistema. Silenciam-se. Fim. E a certeza de que a vida num instante existe e noutro se finda merece, por si só, uma reflexão. Não porque o refletir-sobre-a-morte seja ato agradável, mas porque, eu creio, ao evitar refletir sobre a morte nós deixamos de melhor vivenciar a vida. E ainda que — como dizia Epicuro há mais de 2400 anos — “não haja nada a temer na morte”, seu insabido momento não permite que nos programemos. Porque eu posso estar aqui, sentado a pensar, dormindo a sonhar, aprendendo a desenhar [...] e de repente, sem mais, sequer um segundo a mais, não mais estar. Morrer. Simples assim.
Nascemos, somos criados, criamos e morremos. Entre um ponto e outro, a vida em cores [ler texto]. E às famílias que surgem entre esse ponto e outro, uma primeira dura certeza lógica: exceto nos raros casos em que todos morrem ao mesmo tempo — como, por exemplo, num acidente aéreo —, fatalmente o filho morrerá primeiro que o pai ou o pai, primeiro que o filho. Morrerá primeiro a mãe ou o filho a deixará neste mundo a chorar sua morte. Fato. Obviamente que se levarmos em conta o processo natural dos acontecimentos, é bem possível que boa parte das pessoas mais velhas morram antes que as mais novas, ou seja, provavelmente os atuais pais e avós já tenham falecido quando novos pais e novos avós surgirem. Nesse sentido, a dura reflexão traz à tona uma segunda certeza lógica, esta mais inebriante: a menos que a-da-foice já esteja prestes a bater em nossas portas e morramos antes que todos os outros, inevitavelmente veremos alguns de nossos entes queridos falecendo, mortos. Inevitavelmente — o que significa que não haverá outra saída —, também uma terceira certeza lógica: sofreremos com isso. E então, para ludibriar o sofrimento, sentiremos saudades, guardaremos as fotos, as lembranças, o cheiro, o toque, as manias, as frases de efeito e, se pudermos, trocaremos qualquer coisa por um minuto a mais com a falecida pessoa. Qualquer coisa em troca de um forte abraço a mais, um toque a mais, um beijo a mais, uma ligação a mais, um não a mais, uma repetição da mania que hoje ainda nos irrita. No fim, sonharemos com um tempinho a mais com aquela que, morta, nada mais pode porque não mais estará, não mais haverá. [...] Mas se a lógica nos leva à conclusão de que inevitavelmente veremos alguns de nossos entes queridos falecendo, há de se considerar também algo em favor dos ainda-vivos: a conjugação do verbo no futuro — veremos. Isso significa — embora alguns já tenham partido e deixado seus legados — que muitos de nossos entes queridos ainda permanecem respirando, vivinhos da silva. E é bem provável, por exemplo, que alguns deles inclusive estejam conectados à internet neste exato momento ou mesmo dormindo, cozinhando, assistindo a programas patéticos na tv ou enchendo às bordas as paciências de outras pessoas por aí. Ainda estão vivos! [...] E neste ponto a reflexão muda de figura.
Até então, três duras certezas lógicas: [1] exceto no caso em que partirmos juntos desta para uma melhor, eu morro antes ou antes morre você. Logo, [2] verei você morrer ou vice-versa. De qualquer modo, caso haja uma boa relação entre nós, [3] inevitavelmente sofreremos. Mas sofrer, neste caso, está conjugado no futuro e, posto que há o diálogo entre mim e você, estamos vivos. A coisa muda de figura porque, enquanto vivos, nada nos impede de matar saudades, registrar novas fotos, sentir o cheiro, o toque, de rir das manias e das frases de efeito. Nada impede um forte abraço a mais, um toque a mais, um beijo a mais, uma ligação a mais, um não a mais, uma conversa sobre a mania que irrita. Bem verdade, só a morte e a falta de consciência sobre as consequências da morte nos impedem de amar na plenitude. Na vida real, você está aí, eu estou aqui e também os nossos estão a respirar por aí.
Por fim, a certeza-mater é que uma hora o coração pára, volta ao nada. Enquanto bate, esforcemo-nos para minimizar o inevitável sofrimento das perdas no futuro. Porque hoje eu estou aqui, a escrever, sentado a refletir, mas de repente, sem mais, posso não mais estar. [...] Hoje é pau, é pedra e, para todos nós, ainda não é o fim do caminho. O hoje ainda é, conjugado no presente.
Viva!




















